Cinecartaz

Pedro Bras Marques

O eterno Mr. Bond

James Bond, já o sabíamos, nunca teve tempo para morrer e nesta sua 25ª aventura volta a fazer aquilo que sabe melhor: salvar a Humanidade do Dia do Juizo Final, sempre preconizado por um psicopata com tiques. Desta vez, o cenário é o dos nano-robots, onde a biologia se cruza com a micro-engenharia para criar monstros invisíveis capazes de influenciarem o DNA das vítimas e, até, de as matar.

O argumento de “Sem Tempo para Morrer” é complexo, até porque, além de novas linhas narrativas, continua outras vindas de filmes anteriores, antes de todas se enlaçarem num nó górdio que só Bond irá conseguir desfazer. Desde logo, Madeleine, que já conhecêramos em “Spectre”, da qual ficámos por fim a saber do seu passado traumático, às mãos dum homem que, agora, se propõe destruir a raça humana. Depois, o próprio Blofeld que não só continua a comandar a partir da prisão, mas que encontra alguém ainda mais poderoso e louco do que ele. E, claro, sempre Bond, com o seu passado, com as suas dores e angústias, entre a reforma que escolheu e o dever que lhe faz ferver o sangue.

A personagem tem evoluído ao longo do tempo, desde o agente insolente e sarcástico interpretado por Sean Connery, passando pela fleuma britânica da composição de Roger Moore, até à de Daniel Craig, quando se tornou mais frio, mais violento, mais humano e, naturalmente, mais complexo. Pelo menos desde “Skyfall” que ficamos a conhecer um pouco mais da biografia pessoal deste órfão que foi treinado para ser um super-agente secreto. As mortes que o traumatizaram, as missões bem e mal sucedidas, um passado longo, onde a escuridão sempre esteve presente acabam por ser desvendadas. Aliás, apesar dos ‘one-liners’ e do humor negro, Craig sempre mostrou um traço melancólico que muitos não gostaram, invocando sempre como referência a deliciosa irresponsabilidade e o colorido pragmatismo dos tempos de Connery. Certo é que, em “Sem Tempo para Morrer”, o ciclo fecha-se, algo que se vinha adivinhando pelo evoluir dos argumentos dos filmes e dos sinais que, ao longo deste filme, nos vão sendo apresentados. Desde logo, a “passagem de modelos” dos diversos Aston Martin, desde o pioneiro e histórico DB5 até ao “state of the art” que é o recentíssimo DBS, acontecendo algo de semelhante com os Land Rover. Depois, nos escritórios de “M”, é exibida a galeria dos diversos chefes do MI6 a quem Bond reportava. Finalmente, personagens que existem quase desde o início da série, como o agente da CIA Felix Leiter e o próprio Blofeld, vêm o seu destino resolvido. E o maior sinal do fim de Daniel Craig é dado logo no início, quando o vamos encontrar em Itália, a visitar a campa da sua amada Vesper Lynn, cuja morte assistíramos em “Casino Royale”, precisamente o filme que apresentou ao mundo Daniel Craig nas vestes de 007 e que, aqui, tem a sua despedida. Portanto, há toda uma atmosfera de fim de ciclo que faz com que saíamos da sala de cinema com um sabor amargo, em vez da habitual euforia por via da espetacularidade do que se acabara de se assitir…

Daniel Craig sai, mas fá-lo pela porta grande. Foi o melhor Bond de sempre, atingindo em “Skyfall” o seu apogeu, bem como o da série. Tudo aí foi perfeito, até mesmo Adéle a ressuscitar o espírito canoro de Shirley Bassey, dos tempos de “Goldfinger”, já avisando “this is the end”… Em “Sem Tempo para Morrer” aparece Billie Eilish que, evidentemente, não consegue chegar nem perto. Os elementos típicos da série, como ambientes sofisticados, gadgets, mulheres delumbrantes (a lindíssima Ana de Armas tem uma participação alo pateta…), e muita acção. Em IMAX, que foi onde vi, é um espectáculo dentro de outro. Notas altas: para a sensual Lea Seydoux, enquanto Madeleine, que em “Spectre” tinha deixado ficar no ar alguma desilusão, mas que agora agarra o papel e se torna fundamental; para o realizador Cary Joji Fukunaga, que deslumbrara na primeira temporada de “True Detective” e que esteve à altura da dimensão da história e da História da série; e para os argumentistas, uma equipa de sonho onde, além do realizador, estiveram os habituais Neal Purvis e Robert Wade, a que se juntou a genial Phoebe Waller-Bridge (“Flebag”).

Sem dúvida que o filão 007 é demasiado rico para se encerrar a mina e dentro em breve se anunciará o novo rosto da personagem. Com Idris Elba de fora, continuo a apostar em Tom Hiddleston…

Publicada a 10-10-2021 por Pedro Bras Marques