Cinecartaz

Fernando Oliveira

Benedetta

Nos últimos vinte anos, e até “Benedetta”, Paul Verhoeven realizou dois filmes magníficos: “Livro negro” em 2006 e “Ela” dez anos depois (há um pelo meio que não conheço). Posto isto, até “Benedetta” são estes dois os únicos filmes que gosto do realizador; uma das coisas que tive maior dificuldade em perceber e aceitar em Cinema nos últimos anos foi a reavaliação que a critica fez aos filmes anteriores do realizador depois da estreia do filme de 2016. Os dois filmes que conheço da fase inicial na Holanda são aquilo a que alguém chamou espalhafato mentecapto; e nos EUA qualquer dos filmes em que os personagens principais são homens (“Amor e sangue”, “Robocop”, “Desafio total”, e “Soldados do universo”) é só escolher qual deles é o mais abjecto. Mostrando que Verhoeven gosta de filmar mulheres fortes desafiando a misoginia dos homens (também a sua, presente nos outros filmes de forma mais ou menos intensa) são “Instinto fatal” (e o descruzar e cruzar de pernas da personagem interpretada por Sharon Stone não será uma das mais importantes provocações no Cinema americano da época, um desafio de uma mulher perante um “mundo” controlado pelos homens?), e “Showgirls” (a mesma provocação contada de outra maneira), os dois filmes em que no meio dos seus muitos defeitos conseguimos gostar um pouco.
Depois a vertigem moral que atravessa “Livro negro” e “Ela”, com personagens femininas tão sofridas quanto fortes, vulneráveis mas capazes de serem cruéis. Mulheres que tanto podem ser as vitimas como quem manipula a narrativa. São mulheres que nos provocam quando nos questionam sobre a sua verdade. Também é assim Benedetta Carlini, uma freira que na Itália do século XVII assolada pela peste foi primeiro associada a milagres e depois acusada de blasfémia e lesbianismo.
No inicio do filme, Benedetta é ainda uma criança, vai entrar por sua vontade num convento de Pescia porque acredita que fala com a Virgem. Na primeira noite, quando reza a uma imagem da Virgem esta cai sobre ela sem a esmagar, é o primeiro “milagre”.
Dezoito anos passam. Numa encenação da morte da Virgem, interpretada por Benedetta, ela tem a primeira visão de Cristo que fala com ela. Nesse dia, uma rapariga irrompe no convento pedindo que a recebam porque era violada e violentada pelo pai e pelos irmãos. Bartolomea tornar-se-á a aliada, a parceira e depois a amante de Benedetta.
Benedetta então? Por um lado, Verhoeven deixa-nos num estado de suspense, de incerteza, sobre a sua crença. Benedetta “recebe” de Cristo os estigmas, as cinco chagas que o marcaram durante a crucificação, uns acreditam por fé, outros por interesse, outros chamam-lhe mentirosa, mas e ela, acredita? Saberemos que ela é a causadora das feridas, mas também percebemos que acredita sinceramente que fala com Cristo, e na última cena, quando regressa a Pescia, diz a Bartolomea que mesmo que a condenem à fogueira, as chamas não lhe tocarão, Cristo protege-a.
Por outro lado será uma mulher que, como diz Verhoeven, quer ter prazer, e que utiliza a sua crença numa relação “pessoal” com a Virgem e com Cristo para ter o poder de fazer o que quiser. Quando é nomeada abadessa, deixa os aposentos comuns e fica com um quarto só seu. Pode entregar-se aos prazeres do sexo com Bartolomea. Ou podemos encontrar no filme uma comparação entre os espasmos místicos de Benedetta, e os orgasmos que Bartolomea lhe dá?
“Benedetta” é sobre uma mulher que historicamente causou bastante perturbação na Igreja, e que é o primeiro caso documentado de lesbianismo na Europa. Que na história contada no filme, sabe manipular os jogos de poder na defesa da sua verdade (religiosa, física e emocional), sabe encenar a mentira (que também é a sua verdade) impondo-a como uma verdade para os outros, usando o medo da peste, o temor a Cristo. Salva Pescia da peste, salva-se da fogueira, mas vive o resto da vida quase em isolamento.
Actrizes estupendas – Virginie Efira é Benedetta, Daphne Patakia é Bartolomea (e é espantosa a liberdade que vemos nas cenas de sexo), Charlotte Rampling é a freira Felicita (a abadessa do convento antes de Benedetta) e Louise Chevillote é a freira Christina (filha da abadessa, não acredita nos milagres, é punida e depois suicida; é a vingança da mãe que precipita a “queda” de Benedetta) – noutro magnifico filme de Verhoeven.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 29-11-2021 por Fernando Oliveira