Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Santíssima Trindade

Sempre olhamos para a cultura oriental com um misto de fascínio e adoração, desde a alimentação à música, passando pelas artes, pela relação com a natureza e com o outro, até aos conceitos filosóficos que as gerações mais recentes adoptaram como porta de entrada numa “nova era”… Esta visão tem uma parte fantasiosa, de wishful thinking, mas há ali elementos que correspondem à realidade, embora ela precise de séculos para ser adquirida e não o tempo que leva a ler um livro de auto-ajuda…

No cinema, são vários os exemplos que procuram demonstrar esta sensibilidade muito própria. Um dos mais recentes é, precisamente “A Roda da Fortuna e da Fantasia”, de Ryusuke Amaguchi, onde nos são contadas três histórias distintas. A primeira versa sobre um triangulo amoroso, em que as duas personagens femininas mantêm uma longa conversa durante uma viagem de táxi, em que uma conta à outra o quanto deslumbrada está com o seu novo namorado, sem desconfiar que este está apaixonado pela amiga sentada ao seu lado – que sabe disso. Haverá, naturalmente, opções a serem tomadas… Na segunda, um professor decide chumbar um aluno que, irado, põe em prática um plano para o prejudicar. Assim, pede a uma amiga e ex-aluna dele, que vá ter com o docente, um escritor famoso, lhe peça um autógrafo e lhe leia um excerto do seu mais recente livro, uma passagem ostensivamente sexual, para ver se ele cede à tentação… Nada de físico acontece, mas a conversa leva-os para lugares imprevistos… No terceiro momento, duas mulheres cruzam-se na rua e parecem reconhecer-se. Uma afirma ter sido colega de escola da outra e esta diz recordar-se. Convida-a para casa e ficam a conversar, chegando a temas íntimos, até a anfitriã confessar que não se lembrava da outra…
São, efectivamente, três histórias autónomas mas com elementos em comum. Desde logo, o aspecto formal, já que em qualquer delas há longos diálogos apenas entre as duas personagens principais. Temos, portanto, a linguagem como ligação entre as pessoas, mas longe das concepções ocidentais de filosofia da linguagem, como a de Wittigenstein, por exemplo. Aqui, as palavras são o veículo de interligação interior. Quase não há gestos ou movimentos de corpo. As personagens estão sentadas ou paradas, olhos nos olhos, e falam. O efeito resultante é magnífico. O espectador apercebe-se da intensidade da tempestade que vai dentro de cada protagonista não por via de expressão faciais, mas das palavras e do seu efeito no outro, e sem que haja inflexões ou alterações na voz. Por via dos longos planos, há tempo para o espectador se aperceber da falsa simplicidade dos locais onde os diálogos ocorrem: num veículo em movimento, dentro duma sala de aulas, numa ponte por cima da linha de caminho de ferro. O simbolismo é evidente. Por outro lado, nas três histórias há uma personagem que, embora não mentindo, fantasia sobre a realidade: a namorada preterida que sonha tudo expor, a ex-aluna que esconde segundas intenções, a mulher que diz ser quem não era…

A roda da fortuna e da fantasia. Temas ficcionais que já deslumbravam os antigos gregos e a que Ryusuke Amaguchi dá uma nova e belíssima visão. Um filme imperdível.

Publicada a 07-02-2022 por Pedro Brás Marques