Cinecartaz

Pedro Brás Marques

A rir se vão dizendo as verdades...

Quando perguntaram a George Mallory porque é que gostava de subir às montanhas, a resposta foi lapidar: “Porque estão ali!”. Numa frase simples, o malogrado alpinista britânico sintetizou a ambição humana, de ver o que está para lá da linha do horizonte, de querer chegar às estrelas. Quando alguém ordena que tal não se deve fazer, que “não se deve ir mais além" ou "que não se pode olhar para cima”, isso é a negação da própria natureza e do sentido da Humanidade.

Kate Daibinsky é uma jovem astrónoma que descobre um cometa em rota de colisão com a Terra. Juntamente com o seu mentor, Ronald Mendy, procuram alertar as autoridades americanas para o evento que, dali a seis meses, destruirá a vida no planeta. Mas ninguém lhes liga. A Presidente está mais preocupada com questões de política interna, as televisões e jornais olham para eles como “maluquinhos” e nas redes sociais, claro, são desvalorizados e afogados em teorias da conspiração. Quando o problema começa a ser enfrentado, a intervenção dum “tech billionaire” salvador acaba por derrubar o plano inicial…

“Não Olhem Para Cima”(Netflix) é uma inteligente sátira, muito centrada na realidade norte-americana, mas com reflexos globais. Temos um cometa em rota de colisão, ou seja, um facto científico comprovadíssimo (99,7% de probabilidade de acontecer) que é desvalorizado porque a revelação não interessa aos políticos e a sociedade está mais direccionada para a futilidade do romance de cordel entre dois cantores da moda. A Presidente dos EUA, um émulo feminino de Donald Trump, está apenas preocupada com a sua manutenção no poder, pelo que opta por dar força à teoria conspirativa de que não haveria cometa algum, tudo não passaria dum embuste para enganar a população. Daí o slogan “Don’t Look Up”, que se pode ler em todo o lado até em bonés vermelhos onde habitualmente estaria escrito “Make America Great Again”… A facilidade com que actualmente se acredita em mentiras, em verdades empíricas, em teorias mirabolantes desligadas da realidade, tudo desprezando a racionalidade e a comprovação científica, colocando em plano de igualdade gente fraudulenta e cientistas, é o grande tema deste filme, que o cruza, sagazmente, com os movimentos político-sociais de extrema-direita que emergem um pouco por todo o lado (como o QAnon, as ondas negacionistas sobre vacinação ou sobre vivermos numa planeta esférico, por exemplo) e a crença, quase transformada em culto, nos novos salvadores new-age vindos do mundo da tecnologia, num piscar de olhos a gente como Elon Musk, Jeff Bezos e Steve Jobs, que acenam à Humanidade com um novo Shangri-La digital e tecnológico, tal qual o nosso queirosiano Jacinto quando apregoava que “Suma Ciência X Suma Potência = Suma Felicidade”.

Ao nível da interpretação, há duas personagens principais, interpretadas por Leonardo di Caprio e Jennifer Lawrence, em sintonia quanto ao conteúdo apocalíptico, mas de lados opostos quanto à forma de o transmitir, o primeiro mais tímido, racional e maduro, esperando que o Mundo o perceba, enquanto ela se revela impulsiva, emocional, explodindo de indignação perante a apatia generalizada. Ambos excelentes nestes registos díspares, mas não se poderá esquecer Meryl Streep na sua composição duma Presidente egoísta e sem valores humanos (até de ser mãe se esquece…), Cate Blanchett enquanto locutora que seduz e enfeitiça o pobre Prof. Mendy, Mark Rylance no papel do “afectado” milionário high-tech Peter Isherwell que a todos promete a felicidade (ish-er-well…), entre muitos outros. Não por acaso, são actores quase todos conotados como adversários do Partido Republicano, o que não será, obviamente, inocente. Como também não o é o facto de ser um filme de Adam McKay, que parece gostar muito de erguer estas bandeiras contra o sistema republicano e capitalista: foi assim contra o materialismo cego da Bolsa, em “The Big Short/ A Queda de Wall Street” e com “Vice”, biopic do vice-presidente republicano Dick Cheney, com o evidente trocadilho da palavra-título que tanto se refere ao número dois do Governo como significa “vício”. O facto de ter de pagar, aqui, a Leonardo di Caprio trinta milhões de dólares e a Jennifer Lawrence vinte e cinco, e de ele próprio ter levado para casa vários milhões enquanto produtor, realizador e argumentista não parece afectar o seu entendimento do significado de “coerência”…

De louvar, também, o desvio do filme face a um previsível “disaster movie”, tal como é de aplaudir o humor negro levado ao absurdo, com ecos evidentes em “Dr. Estranho Amor”, de Kubrick”, e na mensagem sobre a manipulação dos media de “Network”. Um bom filme, inteligente, amargamente satírico para com a espuma dos dias e também a servir de alerta sobre alguns dos sinais preocupantes que vamos vendo na nossa sociedade. Já diziam os romanos, “ridendo castigat mores”…

Publicada a 04-02-2022 por Pedro Brás Marques