Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Fica deitado, Lázaro...

1999. Era o ano em que os fãs de ficção-científica tinham reservado para 13 de Setembro a celebração do “dia da partida”, o momento em que a Lua abandonaria a sua órbitra, inciando uma viagem pelo espaço, como prognosticava, décadas antes, a série “Espaço 1999”. Mas, este mundo temático havia sofrido, meses antes, uma verdadeira revelação, com a estreia dum filme que se tornaria icónico: “The Matrix”, realizado pelos irmãos Wachowskis. Visualmente era um deslumbramento, com sequências de acção nunca vistas, mas sem perder algumas referências visuais da História do Cinema e da Arte. Mas, ao nível conceptual, ainda ia mais longe, em especial se atendermos a que se tratava dum produto americano. Desde logo, a concepção filosófica sobre o que é realidade e o que é ficção, estribado em “Simulacros e Simulação”, de Jean Braudillard, ao mesmo tempo que fazia uma original síntese de temas religiosos, gnósticos, filosóficos, mitológicos, esotéricos e antropológicos. Uma obra complexa, passível de diferentes níveis de leitura. Ainda se seguiriam mais duas continuações, “Reloaded” e “Revolutions”, que fechavam o arco da narrativa. Ou assim pensávamos…

Mas eis que chegados a 2021 e é anunciado “Matrix: Ressurrections”. OK, já há dois milénios que todos sabemos que um Salvador tem a capacidade de ressuscitar, mas será que era mesmo necessário fazer o mesmo a Neo/Mr. Anderson? Curiosamente, o próprio filme, num momento de auto-ironia, responde à questão, pela boca duma das personagens: "não, não era preciso, mas se a Warner insistia, então mais valia ser a mesma equipa a fazê-lo"…
Temos assim um salto temporal de sessenta anos, em que Neo já (re)aparece vivo e de boa saúde, Trinity é Tiffany, uma mãe exemplar, a distopia entre mundo real e ilusório mantem-se e as máquinas continuam a comandar quase tudo… Então, onde é que está a salvação? No Amor, claro. Daí que uma das linhas narrativas, de onde as demais se alimentam, passa por reunir o casal-maravilha. Cenas de acção não faltam, há personagens novos, outros que envelheceram, mas fica a sensação de que, naquele universo, quase tudo está na mesma… Daí que Lana Waschowski tenha optado por transferir o sentido da história para um muito mais prosaico drama amoroso. Não espanta, portanto, que o público não tenha acorrido às salas com a voracidade que a produtora esperava, até pela sensação de que a história estaria “fechada” e de que “Matrix: Ressurrections” não passa dum golpe comercial. O que é verdade, embora se reconheça que oferece um entretenimento pirotécnico bastante agradável.

Publicada a 04-02-2022 por Pedro Brás Marques