Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Correu quase tudo bem...

“A vida não se define por critérios médico-científicos, já que se trata de um conceito político, filosófico e teológico”, como referiu António Guerreiro, há uns tempos, na sua crónica no Ípsilon. Vivemos numa sociedade que se esqueceu da morte enquanto momento fundamental da própria existência humana. É a “crise da morte” na expressão de Edgar Morin. Num mundo onde todos julgam que têm direito à felicidade material, a morte é algo que entra em choque com isso, pelo que há que a afastar e esquecer, talvez por estarmos “desiludidos com Deus” para parafrasear Richard Dawkins e termos resolvido substituí-lo por uma amiga, mais espectacular e sensorial, a Ciência, sonhando com a nova revolução evolutiva, como ironicamente alerta Francis Fukuyama. Mas, então, como responder à questão fundamental: qual é o valor da Vida e que fim deve ter? Se invocarmos Kant, trata-se dum valor inviolável, intrínseco e absoluto. Mas também se pode optar por uma visão utilitarista, de que só deveremos mantê-la se realmente houver condições para viver, como defendia Stuart Mill. No meio, há uma terceira posição, a que poderemos chamar de individualista, e que deixa a resolução da questão para o campo da escolha individual: é o próprio quem decide.
Todo este introito serve para sublinhar e alertar para enorme dimensão da questão da eutanásia, enquanto decisão de colocar fim à vida de forma não natural, algo que está na ordem do dia, quer no plano ético, onde sempre esteve, mas agora também no político e legal. Por ali passam conceitos complexos, como suicídio, homicídio, suicídio assistido, eutanásia passiva e activa, voluntária ou involuntária, distanásia, ortotanásia e, claro, o “direito a morrer”. A ficção já se tem debruçado sobre o tema, em filmes como “Million Dollar Baby” de Eastwood, “Amor” de Haneke, “Mar Adentro” de Amenábar, “Silent Heart” de Bille August, entre outros, sem esquecer series como “Mary Kills People” e livros como “A Balada de Adam Henry”, de Ian McEwan.
Então, como é o contributo do prolífico François Ozon para a temática? Com “Correu tudo bem”, o realizador francês volta a querer polemizar, como já fez no passado, basta recordar “Jeune et Jolie” sobre a questão da voluntariedade em proporcionar sexo pago ou o magnífico “Grâce à Dieu” acerca da pedofilia na Igreja. Aqui, a eternamente bela Sophie Marceau interpreta Emmanuele, uma filha que é confrontada pelo desejo do pai em colocar fim à vida, através de eutanásia voluntária. Um AVC, seguido de uma trombose, colocam-no numa situação física deplorável, de total dependência, indigna para alguém que foi um industrial de sucesso e um humanista ligado às artes. Ao seu lado está a outra irmã, Pascale, mas o foco da trama centra-se na filha que partilha o nome de Cristo, Emanuelle a quem é pedido que siga a palavra do pai... Porque é a mais velha, porque está mais próxima do pai e é ela que melhor consegue sintonizar-se com o propósito paterno, pelo que vai ser ela a liderar a satisfação do pedido, apesar da natural dor e do conflito interior. Como sempre, Ozon recheia o filme de subtilezas que ajudam a tudo homogeneizar. Como quando Emmanuele aparece quase sempre vestida de azul, ou quando explica a turistas, em inglês, o que eles pretendiam (comunicação que não consegue “traduzir” com o pai), ou as esculturas circulares da mãe, uma mulher fria e granítica, igualmente incapaz de trabalhar.
Não há exactamente um problema com “Correu tudo bem”, mas tendo em conta alguns dos filmes citados, cuja comparação é inevitável (“Amor”, então…), fica algo aquém na dimensão emocional que poderia alcançar, talvez pela indecisão que perpassa pelas personagens ou, então, por se ter colocado o foco não no doente (como acontecia em “Mar Adentro” e “Million Dollar Baby”) mas a quem ele pede ajuda. Sophie Marceau tem uma luta, é certo, entre o emocional que lhe diz que “não” e o racional que a aconselha ao “sim”, mas parece faltar-lhe aquele pormenor que distingue o bom do óptimo. André Dussollier enquanto o pai que deseja a eutanásia, tem uma magnifica composição, em especial ao nível físico. Referência, ainda, para as presenças de Charlotte Rampling, o sentimento é outro, quando a vemos idosa e amarga, bem diferente do tempo em que Ozon a filmou em “Swimming Pool” e da musa de Fassbinder, Hannah Schygula.
O debate sobre o tema está longe de estar encerrado e filmes como este, provocam discussão e ajudam a definir posições. Há mais, como objecto cinematográfico em si, mas, se fosse só pelo debate, já valeria a pena.

Publicada a 16-03-2022 por Pedro Brás Marques