Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Qual acontecimento?

Ana é estudante e a data dos exames de acesso à Universidade aproxima-se. Aluna brilhante, tudo se conjuga para que a barreira seja ultrapassada, até ao momento em que descobre que esta grávida. Focada no seu propósito universitário, tenta abortar. Procura ajuda, mas ninguém lhe dá a mão. Está sozinha, mas não desiste...
Há pouco mais dum ano estreava “Never Rarely Sometimes Always”, o filme de Eliza Hittman que aborda exactamente a mesma temática e com enfoque semelhante: a dor, a angústia e principalmente a solidão duma mulher que carrega um filho que não quer dar à luz. Se, neste, passado na actualidade, o procedimento era perfeitamente legal e realizado em circunstâncias próprias e adequadas, sobrando a angústia da personagem, em “L’Evenement/O Acontecimento”, nada disso se passa. Estamos em França, nos anos 60 e a prática de aborto é crime, quer para quem o pratica, quer para a própria gestante. Daí a enorme dificuldade de Anne em conseguir resolver o seu problema. Os médicos não querem ouvir falar nisso, as poucas amigas a quem confessa o drama igualmente se afastam e à família nada disse. Entretanto, como é natural, o seu estado de espírito altera-se, as notas baixam e a confiança afunda-se.
Audrey Diwan conta-nos a história de Anne de forma brutalmente crua. A realizadora não esconde quase nada, desde os procedimentos artesanais até ao sangue e ao sofrimento físico, tudo é mostrado ao espectador em grandes planos, para que se perceba a violência da tempestade que obnubila a protagonista e que só a deixa centrada numa coisa: conseguir o aborto. Por vezes, Diwan parece querer mostrar que Anne vai mais depressa do que o próprio tempo, filmando-a de costas, sobre os ombros, como se a câmara não a conseguisse acompanhar, restando-lhe ser espectadora passiva da protagonista… Mas, a maior parte do tempo, a face e os belos olhos da franco-romena Anamaria Vartolomei enchem o ecrã, qual portal para a alma, como refere o chavão, numa magnífica e memorável interpretação.
E convém, também, sublinhar a inteligência do argumento, que não se limita a “documentar” quer o que era o tabu em França naquela época como o efeito de alguém que quer rejeitar um nascituro e não o pode fazer, mesmo sendo uma gravidez ainda precoce como a dela. É que o argumento levanta uma questão ética, ao problematizar a verdadeira intenção de Anne. O tal “acontecimento” a que o título se refere, afinal, é o quê? É a gravidez/aborto que a impede de ir às provas de acesso, ou é o próprio exame de entrada que está em perigo por causa da gestação? A duplicidade do título, que “engana” o espectador, eleva o filme a um patamar bem maior do que aquele em que estaria se se resumisse à mera questão moral da interrupção da gravidez - como bem se alcança na sequência final.
Desta forma, Diwan leva-nos mais longe: por um lado, temos a questão da extensão da liberdade sobre o destino a dar a uma gravidez; por outro, convida-nos a um mergulho na motivação que preside à decisão. No fundo, convida o espectador a pensar: abortar é um acto de liberdade ou de egoísmo?

Publicada a 19-04-2022 por Pedro Brás Marques