Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Dor

Extraordinário. Já não me lembrava de ficar tão atordoado com um filme… Nunca fez tanto sentido o recorrente slogan de Fernando Pessoa para a Coca-Cola, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, como neste filme de Mathieu Amalric. Andámos meios-perdidos durante a maior parte de “Abraça-me com força”, até àquele momento em que, sem contarmos, levamos um soco que nos deixa estupefactos. A partir dali, tudo o que ficou para trás faz sentido. Até o título…

Conhecemos Clarisse, casada e com dois filhos, quando decide sair de casa, abandonando a família. Ao volante dum carro antigo, viaja por França, em direcção às montanhas. Ao mesmo tempo que a acompanhamos, vamos assistindo ao que se passa em casa, com a filha a aprender piano, o mais novo a irritá-la e o pai a amparar as pontas. O tempo passa, os miúdos crescem, ela permanece ausente e, quando tenta o contacto, eles não a reconhecem e sentem-se perturbados pela sua presença…

Este é um filme sobre redenção, sobre o passado, sobre a imutabilidade da passagem do tempo. Na primeira cena de “Abraça-me com força”, vemos Clarisse sentada na cama, com várias polaroids viradas para baixo. Procura emparelhá-las, como no conhecido jogo de paciência, enquanto repete “recomeçar, recomeçar, recomeçar…”. Já a meio do filme, começa a consciencializar que talvez esse seu desejo não dê para se concretizar: “isto assim não vai lá…” No final, Clarisse assume algo como que uma aceitação. Mas até chegarmos aqui, o que é que realmente se está a passar? Por que é que ela partiu? Por que é que não volta? Por que razão os filhos não a reconhecem? Serão mesmo seus filhos? O que é que se passa com esta mãe? E acha que vai alcançar respostas no local onde habitam os deuses, nas montanhas? Por que é que não assume de vez a ruptura?

O belo e melancólico rosto de Vicky Krieps foi uma escolha perfeita para interpretar Clarisse. A sua dor, angústia e dúvida estão espelhados no olhar triste e perdido duma mulher adulta, ainda jovem, mas com um peso insuportável nos ombros. Trechos de Beethoven, Debussy, Ravel, Mozart, entre outros, vai preenchendo os silêncios... O prolífico Mathieu Amalric, muito mais conhecido enquanto actor, não deixou a história desta mãe escorregar, nem para o melodrama, nem para o thriller. É precisamente esse equilíbrio, pleno de sensibilidade e de sabedoria, que faz com que “Abraça-me com força” nos envolva suave e sub-repticiamente, qual caçador de emoções escondido atrás de olhos e rostos enganadores. No fim, somos nós quem tem vontade de abraçar Clarisse. Com força.

Publicada a 08-02-2022 por Pedro Brás Marques