Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

O realizador francês Xavier Giannoli agarra pelos cornos a obra de um monstro da literatura gaulesa (Balzac) e "transforma-a" em Ilusões Perdidas. Um drama histórico que, apesar da sua acção remontar à Paris do século XIX, apresenta-se-nos com uma contemporaneidade avassaladora, por abarcar temáticas que permitem extrair reflexões/efectuar comparações pertinentes com maleitas que também nos corroem na actualidade, nomedamente a corrupção e a expansão de fake news, nos jornais, com o intuito de manipular politicamente o povo (bem como por, a nivel artistico, prescindir de um classicismo barroco excessivo que, por norma, caracteriza este género cinematográfico).

Lucien (encarnado por Benjamin Voisin que, com apenas 25 anos, é dono de uma tal expressividade e carisma natural que os seus préstimos já são requisitados por grandes mestres da sétima arte do seu país, como Ozon e Techiné) é um humilde jovem idealista, e virtuoso na arte da escrita, que abandona a provincia rumo à cidade da luz e da ostentação (acompanhado por uma aristocrata rural, com a qual mantém uma relação amorosa secreta), com o objectvo de ascender socialmente e singrar enquanto poeta.
No entanto, a coisa irá correr para o torto (e sabemo-lo desde o inicio, por menção da própria narração em off, que nos guiará, de modo constante, ao longo de todo o filme), fruto do abandono (forçado) por parte da sua protectora e da competitividade/agressividade desonesta dos seus pares do mundo das letras (que não passam de traficantes de palavras, que se vendem sem qualquer pudor a quem mais lhes oferecer, estando-se nas tintas para a verdade artistica e/ou jornalistica).
Desse modo, cedo perde a sua ingenuidade campreste, e deixa-se contaminar pelo desejo vingança e pela avareza, tornando-se num temido e respeitado critico jornalistico, o que lhe granjeará múltiplos inimigos, que irão empurrá-lo para o abismo.

Realçe-se o distinto requinte desta obra ao nivel da fotografia e dos seus enquadramentos que captam subtilmente os olhares furtivos, as provocações silenciosas e "tudo o mais que não é dito".
E obviamente o carácter multifacetado das suas personagens interpretadas, para além do genial Vioson, por uma constelação de estrelas, de entre as quais se destacam Vincent Lacoste, Gérard Depardieu, Xavier Dolan e Cécile de France.

Publicada a 03-02-2022 por José Miguel Costa