Cinecartaz

Pedro Brás Marques

A vida é um palco

Nos tempos que correm é difícil encontrar uma comédia que não trate o espectador como se fosse atrasado mental. Felizmente, ainda se registam excepções e “O Bom Patrão” é um exemplo que nos faz acreditar na salvação do género..

O cenário é o de uma empresa de balanças e o protagonista, único, é Blanco, o tal “patrão”. Com o anúncio de que se aproximava a visita dum comité encarregado de atribuir prémios de excelência fabril, ele quer que tudo esteja perfeito na empresa para não falhar o galardão. O problema é que…há sempre problemas: o trabalhador que foi despedido e assenta arraiais à porta da fábrica, o director de produção que anda com a cabeça no ar, a nova e atraente funcionária do marketing que lhe mexe com a cabeça… Mas para tudo Blanco tem solução, a bem ou a mal. Porque ele é um maravilhoso poço de contradições, característica de quem é manipulador. A sua cara transpira tolerância, das palavras que esvoaçam da sua boca cai mel, os seus gestos são absolutamente magnânimos, para ele tudo é família, desde a de sangue à da fábrica. No entanto, já dizia Shakespeare que “a vida é um palco”. E é ao som de “Romeu e Julieta” de Prokofiev, que Blanco se auto-coroa, qual Napoleão, como ser superior, ultrapassando “coisas menores”: que todo o bem que apregoa tem um fim egoístico, que atrás dum marido carinhoso está um adúltero e acima da amizade está o seu interesse material. O ego comanda a vida de Blanco.

Tudo aqui é ironia, desde o título, pois “bom” não é, passando pelo nome que de “branco” nada tem e pelo produto da fábrica (balanças...) até aos comportamentos autoritários de “patrão” – atente-se no detalhe que ele não é “chefe”, não é “líder”, é “patrão”. Faz lembrar muitos “patrões” autodidatas do nosso tecido empresarial, em especial no Norte – só falta a perninha no futebol… Claro que é uma comédia com um enquadramento social, um tema querido ao realizador, mas invertendo a lógica habitual desta temática (trabalhadores contra a direcção), Fernando Leon de Aranoa consegue fazer passar a mensagem da “luta de classes” com muito mais eficácia, porque de forma inteligente. Ou seja, ao contrário de realizadores que encaram a questão de forma realista, como Ken Loach e Stèphane Brizé, o espanhol opta pelo tom jocoso. Já tinha abordado a temática há quase vinte anos no belíssimo “Las Lunas al Sol”, com uns muito jovens Javier Bardem e Luis Tosar, onde o tema era o desemprego, sem esquecer outras questões sociais como as da prostituição em “Princesas” e da imigração em “Amador”. Mais do que uma coerência granítica, o grande feito de Aranoa é conseguir momentos verdadeiramente notáveis. Destaco dois: o jantar com os pais da “amante”, um fogo-de-artifício de tiradas com duplo sentido, e o mencionado momento em que, ao som de Prokoviev, ele como que se transforma, qual lagarta em borboleta. Javier Bardem é excessivo e cabotino, mas no bom sentido. Aliás, tinha de o ser, caso contrário, a composição de Blanco perderia impacto.

“O Bom Patrão” foi o candidato espanhol ao Óscar e limpou grande parte dos Goya, à frente, por exemplo, de “Madres Paralelas”. E sem dúvida que é das mais refrescantes e brilhantes propostas do cinema espanhol dos últimos tempos, muito centrado nos thrillers e nos dramas psicológicos que, sem dúvida, lhe têm granjeado sucesso internacional.

Publicada a 22-02-2022 por Pedro Brás Marques