Cinecartaz

Pedro Brás Marques

O fundo da alma

Quando deparamos com o nome de Guillermo del Toro, ficamos imediatamente à espera duma história que convide o espectador a deslumbrar-se num mundo fantástico, povoado por criaturas horrendas mas de bom coração, de seres humanos belos mas malévolos, de cenários grandiosos e assustadores, tudo isto enquadrado em ambientes escuros, que a luz tem dificuldade em rasgar…

“O Beco das Almas Perdidas” não foge à regra, jogando com os limites do realismo, circunscrevendo-se ao maior viveiro conhecido de monstros: a alma humana. Estamos em 1939 e conhecemos logo Stan Carlisle, a figura central desta história, que rapidamente se percebe ser um extraordinário burlão. Em busca de trabalho, arranja emprego num circo ambulante, um “freak show” onde as atracções são aberrações e deformados, mas onde há espaço para enganar incautos com mágicos, “médiuns” e videntes. É aqui que Stan entra, com a sua capacidade inata de “ler” as pessoas, que acaba por desenvolver graças a uns colegas de profissão que tinham aperfeiçoado um método infalível de obter informação “invisível” das vítimas. Apesar do aviso de que o uso do livro levaria à tragédia, com a sua apaixonada Molly, que recruta no circo, Stan abandona a itinerância campestre e vai para a grande cidade, onde se torna uma estrela, brilhando em recintos sofisticados. Uma vez aqui, é abordado por clientes cada vez mais ricos, que lhe exigem contactos com o Além. Stan acaba por se envolver com uma psicóloga, Lillith, que lhe fornece informações dos clientes, em especial de um, extraordinariamente rico, que pretende voltar a falar com a filha há muito falecida. Mas nem tudo corre como o previsto…

Portanto, não estamos no habitual domínio do fantástico, como é usual no realizador mexicano, mas isso não o impede de construir cenários que, tal como a acção de Stan, também nos enganam, escondendo a realidade através duma notável prestidigitação visual e narrativa, com ecos sombrios na personalidade e no destino das personagens. Todo o filme decorre de noite ou em interiores, com uso recorrente da contra-luz e duma iluminação cuidada e intencional para acentuar o clima paranormal que perpassa “O Beco das Almas Perdidas”, um remake do filme homónimo de 1947. Ou seja, tal como “Hellboy” era um filme sobre um monstro mas ao serviço da Lei ou “A Forma da Água” não era de terror mas uma história romântica, também aqui Del Toro “engana” o espectador, qual prestidigitador, mostrando-lhe algo apenas para lhe distrair a atenção, sempre em crescendo até se chegar ao final mencionado no título. Se a dinâmica da trama está primorosamente gerida, num crescendo lento e sereno mas imparável, a verdade é que o deslumbramento vai mesmo para a “mise-en-scene”, onde todos os detalhes são importantes. Visualmente, a parte rústica evoca a efémera série “Carnivàle”, enquanto a urbana faz lembrar Tim Burton na grandiosidade terrífica dos edifícios e na complexidade dos mesmos, incluindo os seus labirínticos jardins, sempre prenunciando a existência do Mal - tal como o consultório de Lillith, num maravilhoso mas perturbador estilo art-deco. Ah! Sumptuoso, o guarda-roupa do luso-canadiano Luís Sequeira.

Bradley Cooper interpreta Stan no que é um dos melhores papéis da sua carreira. Uma personagem complexa, com um arco de desenvolvimento lato, que vai desde o humilde e faminto a pedir emprego até ao senhor dos palcos, aplaudido pelas pessoas mais importantes da cidade. O actor consegue transmitir não só a malícia subtil inerente à personagem, como a ganância que progressivamente o invade. A gélida Lillith é desempenhada por Cate Blanchett, uma loira fatal, maléfica e determinada, enquanto a doce e morena Molly foi entregue a Rooney Mara. Um naipe assinalável de excelentes secundários, como Tony Colette, Willem Dafoe, Richard Jenkins e David Strathairn, entre outros, dão o devido acompanhamento.
Uma história negra, sobre as consequências de se atravessarem certas fronteiras. Uma vez do lado de lá, pode não haver regresso…

Publicada a 08-03-2022 por Pedro Brás Marques