Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

"O Rei do Riso", do realizador Mario Martone, é um filme de época cómico, de cariz biográfico, que recua até à Nápoles de 1900 para homenagear a Comemedia Deel'Art (teatro de paródia popular) e mais concretamente o seu representante maior, o dramaturgo e actor Eduardo Scarpetta, uma excêntrica estrela (mal amada pela elite intelectual e idolatrada pelo povo) que à data esgotava salas de espectáculo por toda a Itália.

A pelicula, que adopta o registo "brejeiro" que caracteriza tal subgénero teatral (opção que inicialmente até seduz, mas que gradualmente se torna monótona, e quase massacrante, pelo constante tom histriónico), incide sobretudo sobre o período da sua vida em que foi alvo de um processo judicial interposto pelo poeta D'Annunzio, por alegado plágio de uma das suas obras (pelo que, a partir de determinado momento, a obra também se transforma numa espécie de "filme de tribunal" que disserta sobre os limites artisticos/censura da paródia).

Para além da excelente reconstituição de época, a mais valia deste filme advém da prestação de um elenco solidamente homogéneo, o que não impede que Toni Servillo ("o mais que tudo" do realizador Sorrentino) brilhe acima dos restantes colegas (o que lhe valeu o prémio de melhor actor no Festival de Veneza) na soberba encarnação do idiossincrático Scarpetta (um individuo excessivo, narcisico, contraditório e mulherengo - com múltiplos filhos ilegitimos, não reconhecidos, com a irmã e a sobrinha da sua mulher, embora tal fosse pacificamente aceite por todos, inclusive, a "chifruda").

Publicada a 12-05-2022 por José Miguel Costa