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Crítica

A cidade cor de carvão

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Dizemos muitas vezes que não deve descurar a importância da patine no cinema, e que essa marca — a marca de um tempo preciso — se torna frequentemente, em certos filmes, e passados alguns anos, o mais significativo. No fundo, talvez não seja mais do que uma reformulação daquela ideia célebre segundo a qual o tempo transforma o documentário em ficção e a ficção em documentário. Ou uma forma de dizer que os desígnios da relação do tempo com os filmes são misteriosos, e que muitas vezes chamar “datado” a um filme para o menorizar é um disparate — todos os grandes filmes são “datados”, transportam o seu tempo e nenhum outro (por mais amargos de boca que isso tenda a provocar, num altura em que é comum o choque de descobrir, através do cinema, que o passado não era tão airosamente moderno como o presente).

Rever Terra Estrangeira — e é um caso em que mesmo a descoberta absoluta dará, para espectadores com memória dos anos 1990, uma sensação de se estar a “rever” — é um bom laboratório para essas verificações. Estreado originalmente em 1995, foi a primeira colaboração de Walter Salles e Daniela Thomas. Fora do Brasil, pelo menos, ainda ninguém sabia quem eles eram. Salles tornou-se depois um realizador celebérrimo (Central do Brasil foi praticamente logo a seguir, em 1998), e um dos principais rostos “internacionais” do cinema brasileiro, inclusivamente com ligações a Hollywood (Os Diários da Motocicleta). Daniela Thomas não alcançou o mesmo tipo de projecção, mas foi muito falado (e também cá) o seu último filme, Vazante (2017). Os dois voltaram a assinar um filme a quatro mãos em 2008, Linha de Passe. Mas nunca terão voltado a ser tão graciosamente despojados, genuínos e silenciosos (“silenciosos”, por oposição à pressão de um “discurso” nos seus filmes posteriores) como neste Terra Estrangeira, rodado entre São Paulo e Lisboa.

Sim, Lisboa, Portugal, são aqui a “terra estrangeira”, algo que imediatamente confere ao filme um lugar naquela linhagem — muito vinda dos anos 80: Wenders, Tanner... — do cinema em que os espectadores portugueses descobriam as suas paisagens filmadas como “o estrangeiro”. De certa forma, já em contra-clichés criados justamente por essa linhagem: nada de “cidade branca” (sem desprimor para o belo filme de Tanner, que é outro caso em que quanto mais o tempo passa melhor fica), nada da “maravilhosa luz de Lisboa”, apenas uma cortina de carvão granulado a descer sobre o céu lisboeta, filmado da mesma forma que nas cenas de São Paulo. De resto, há um lado de portfólio fotográfico, portfólio de cidades (tanto a brasileira como a portuguesa), captadas no grão da película (que continua lá, mesmo se a cópia a exibir é já uma versão “digital”) que também se engrandece com a distância temporal, como uma cápsula que se abre e nos traz memórias visuais (e mais no caso de Lisboa, não apenas visuais) de algo que, sobretudo visualmente, já não reconhecemos ou encontramos. A Lisboa dos anos 90 era aquela Lisboa a descobrir o cosmopolitismo, prestes a ser tomada pela energia transfiguradora das preparações para a Expo 98, o momento de viragem e não-retorno para a Lisboa que temos hoje. Terra Estrangeira filma-a nos últimos instantes antes disso — com as suas personagens brasileiras em fuga, como também era do tempo (foi nos anos 90 que se tornou comum ouvir o sotaque brasileiro nas ruas lisboetas). Mas, e isso será também daquele tempo ou de todos os tempos?, sem nenhuma alegria nem nenhuma euforia, como — e há um diálogo que o sugere quase explicitamente — portugueses e brasileiros andassem há séculos a fugirem de um lado para o outro sem encontrarem nem descanso nem uma terra que não lhes pareça “estrangeira”. “I’m a stranger here myself”, como dizia Nick Ray, referência que vem a propósito não apenas pela juventude inquieta das suas personagens mas por habitar também, numa espécie de adequação telepática (conheceriam Salles e Thomas os filmes da “geração de 80” do cinema português, Mozos, Vitor Gonçalves, Pedro Costa, a Nuvem de Ana Luísa Guimarães?), ares e inspirações aproximáveis aos que os seus congéneres lusos de profissão e de geração iam fazendo por cá.

Um belo filme, daqueles cuja (re)descoberta não implica apenas (re)descobrir um filme, antes qualquer coisa vai para além de um filme, tem a ver com nós todos e já não existe.

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