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Crítica

Pelos caminhos da floresta

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Depois do programa de clássicos russos organizado pela Leopardo há um par de Verões, que nos permitiu conhecer alguns cineastas de uma geração moderna insuficientemente conhecida, chega às salas um outro clássico do cinema russo recente que até hoje só tinha chegado a Portugal em DVD. Vem e Vê foi o último filme de Elem Klimov (1933-2003), aluno de Mikhail Romm e marido de Larissa Shepitko, do qual só Adeus a Matiora (1983) teve estreia entre nós. É um dos mais brutais, alucinantes e desencantados filmes de guerra jamais realizados, inspirado directamente na resistência bielorrussa às tropas alemãs em 1943 e no massacre de 628 aldeias ao abrigo da política nazi do “espaço vital” com que Hitler queria colonizar o Leste.

Podíamos dizer que o filme de Elem Klimov é uma espécie de negativo invertido do Império do Sol de Steven Spielberg, sendo, tal como esse, a odisseia de um adolescente que sente na carne o verdadeiro horror de uma guerra até aí pensada em termos heróicos. Inspirado nas memórias de Ales Abramovich, que se juntou à resistência bielorrussa na adolescência, Vem e Vê segue exactamente o mesmo percurso do filme de Spielberg adaptado do livro autobiográfico de J. G. Ballard: do entusiasmo romântico ao desespero paredes meias com a loucura e ao puro instinto de sobrevivência, à medida que o acaso leva Florya de pesadelo em pesadelo.

A comparação com Império do Sol vem em parte da proximidade temporal de ambos os filmes — separados por dois anos — e em parte do ambiente de fábula que tanto Spielberg como Klimov exploram. Aqui, essa fábula da perda da inocência é sublinhada pela presença constante dos bosques onde Florya se junta à resistência, se esconde e se perde; como se a floresta, percorrida pela câmara permanentemente móvel de Aleksei Rodionov que sugere um animal acossado, fosse um labirinto encantado. A floresta amplifica descobertas e terrores, abre as portas para o “outro lado do espelho”, onde a chuva (de pára-quedas e bombas), o nevoeiro, o fogo dão corpo ao pesadelo. Mas Florya não reencontra os pais e vive feliz para sempre, como Jim no filme de Spielberg. Vem e Vê resume-se a alguns dias de 1943, a Grande Guerra Patriótica está ainda a dois anos do seu fim, ainda nem sequer teve lugar o cerco de Estalinegrado, e o filme termina nos bosques em que começou; Florya ainda tem muito que sofrer.

Produzido e estreado logo antes do grande degelo da perestroika, Vem e Vê é um daqueles clássicos que só com o tempo têm vindo a ser descobertos e apreciados (a cópia agora estreada corresponde à versão restaurada, premiada em Veneza em 2017). Na verdade, Klimov transportava o projecto desde 1977; passou anos à espera que as autoridades soviéticas cedessem a aprovar o guião sem cortes — oportunidade que só surgiu em 1984, à beira das comemorações do 40.º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Foi a quinta e última longa-metragem de ficção do realizador, que faleceu em 2003 sem voltar a rodar, dizendo, em entrevistas, que depois de Vem e Vê já nada mais tinha para dizer nem para filmar.

 Por aí, e pela sensação apocalíptica, imersiva, de terra queimada que o filme deixa, podemos também fazer a ponte com outros clássicos recentes da produção russa — a viagem histórica da Arca Russa de Aleksandr Sokurov ou o filme-testamento de Alexei German É Difícil Ser um Deus, também eles imersivos, baléticos e precisos na sua coreografia de massas, também eles paradas claustrofóbicas das quais não nos livramos tão facilmente. Objectos terminais depois dos quais nada resta, apenas o silêncio com que ficamos quando as luzes se acendem. Dos três, Vem e Vê é o mais brutal, o mais niilista, mas também o mais intenso, o mais vivo, o mais urgente. Como se nada pudesse ser resolvido senão pelo regresso à floresta.

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