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Crítica

Não matar saudades

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Podia-se dizer, seria verdade, que Grace falha logo à partida por uma questão de escolha de elenco: olha-se para Nicole Kidman e, apesar de todos os seus méritos e qualidades, não se vê Grace Kelly, vê-se só Nicole Kidman com uma maquilhagem vagamente absurda. Falhar a suspension of disbelief é, num filme com estas características, meio caminho andado para o desastre (também não se acredita no Rainier de Tim Roth, já agora), mas Olivier Dahan faz questão de percorrer o resto do caminho, numa enésima versão da história da “pobre menina rica”, perdida entre a sua identidade e desejos pessoais e as obrigações impostas pelo estatuto, que na verdade não tem nenhuma boa ideia sobre como filmar isso - e a maneira esquisitíssima como às vezes se põe a filmar Kidman, tipo a câmara dos Dardenne nas mãos de um operador a pegar pela primeira vez numa câmara, parece um sintoma desse desespero, como se Dahan acreditasse que se chegar muito perto (fisicamente) da actriz o espectador vai sentir que existe uma personagem. Mas não, e Grace é só uma sequência de encontros e desencontros progressivamente risíveis, com actores em modo absurdo (Derek Jacobi...), num ambiente aristocrático involuntariamente kitsch (dos cenários às maneiras), e totalmente incapaz de materializar o conflito interior que o argumento pretenderia sugerir. Há Hitchcock e a tentação de Marnie, e portanto do regresso a Hollywood e ao cinema; se não fosse por isso (e mesmo assim...), juraríamos que a única Grace que interessava a Dahan era a Grace do “social”, das capas de Hola! e afins - o que, convenhamos, terá o seu interesse “sociológico” mas fica um bocado longe do “mistério” desta mulher. E portanto, sim, se a questão é matar saudades mais vale ir rever a Janela Indiscreta ou o Ladrão de Casaca.

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