Menu
Crítica

Um dia de raiva

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

A mistura é singular: um cocktail com uma dose de filme de acção, outra de jogo de computador (daqueles em que se vai subindo de nível), e um generoso tempero de fábula com moral política. É a história de uma mulher sozinha (ou quase) contra a opacidade e a desonestidade burocráticas. O marido da protagonista (Jana Raluy) está doente com um cancro à beira do terminus, e a seguradora recusou comparticipar os tratamentos; zangada e desesperada, de carabina na mão, a mulher visitará, um a um, os envolvidos no processo (dos médicos aos burocratas e aos gestores), fazendo uso de uma violência digna de uma heroína de Tarantino, em busca de uma reparação ou de uma alteração da decisão de não comparticipar os tratamentos, assim expondo a brutal arbitrariedade do “sistema”.

É difícil ao espectador não se sentir compassivamente próximo da protagonista, para mais quando o antagonista é uma entidade tão consensualmente merecedora da maior repugnância como é o caso do universo das seguradoras (assim dizendo-se alguma coisa, também, e notando que o filme se passa no México contemporâneo, sobre a forma como os estados modernos se vão demitindo de responsabilidades nas questões da saúde e transferindo para entidades privadas um poder que é, objectivamente, de vida e de morte). Mas essa proximidade compassiva é, também, o maior problema do filme: tudo está dado à partida (de tal ponto que o “fim da história”, o julgamento da mulher, vai sendo dado pela voz off, numa espécie flash forward sonoro), a justiça e a injustiça estão dadas à partida, o próprio desfecho está dado à partida, e nada do que suceda durante o filme desalinha por um milímetro que seja o olhar que o espectador intuiu desde o primeiro minuto. Em certo sentido, já não há humanidade em ninguém — nem nos burocratas odiosos nem na protagonista, por uma razão ou por outra (interesse profissional nos primeiros, dor excessiva na segunda) todos se tornaram em “cabeças” do “monstro” referido no título. Este carácter desumano das personagens, dado numa lógica narrativa também tornada maquinal (o que faz com que a ideia do jogo de computador nos venha ao espírito), acaba por afastar o espectador, posto perante uma fábula que confirma tudo o que ele já sabe, e pior, em que tudo está cuidadosamente disposto em função dessa confirmação.

Topo
Pesquisar
© 2011 PÚBLICO Comunicação Social SA