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Crítica

Ninguém sabe o que é uma família

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Depois do desvio “metafísico” de O Terceiro Assassinato (filme sobre a “anatomia dum crime”, obcecado com a justiça, a verdade, a culpa), eis que Hirokazu Koreeda regressa a um território que, sabemo-lo bem, domina como poucos: o espaço familiar, o universo infantil, as relações entre crianças e adultos. Mas também uma espécie de zona escondida da sociedade e da cidade japonesa, um mundo oculto por trás das fachadas, movido por regras pouco canónicas (pouco “tradicionais”), onde nem o que parece uma família é exactamente uma família. Shoplifters é, por isso, o filme dele que mais directamente se liga a Ninguém Sabe (que foi o duríssimo filme que o revelou em Portugal), trocando a rudeza e a violência pela doçura que se encontra noutras das suas pequenas sagas familiares, como Andando.

É mesmo a principal proeza de Shoplifters: compor um retrato de um universo onde a miséria está presente, inclusive a miséria moral, mas desfazendo ou recusando todos os clichés “automáticos” da representação dessa miséria. É ver, por exemplo, como o espaço acanhado da casa onde vivem os protagonistas, todos ao monte, sem privacidade, é filmado por Koreeda duma forma que exala, sobretudo, um sentido de pouco ortodoxa comunhão (como de costume, as cenas de conjunto, os enquadramentos apinhados de personagens, têm alguns momentos magníficos). Ou como as cenas dos roubos – sempre roubos “pequenos”, em mercearias, cafés, uma espécie de “furto de subsistência” sobre os quais Koreeda suspende todo o juízo (e pelo contrário, “convida-nos” a participar neles) – têm a dinâmica de mini-filmes de acção temperada por um “suspense” de burlesco. Claro que a “família”, para lá da sua bonomia mais ou menos assombrada, tem mesmo esqueletos no armário (ou no chão do jardim), histórias de uma violência bem mais dramática; mas a forma retardada como Koreeda o revela tem este efeito: quando percebemos que há mais do que os pequenos roubos, já lá estamos, e, como as crianças que a família “colecciona”, já fazemos parte daquele “agregado”.

E é assim que Shoplifters caminha para um terço final bastante subversivo, a pôr em causa a ideia de família (e de maternidade, e de paternidade) como fenómeno definido pela biologia. “Não basta dar à luz para se ser mãe”, diz uma das mulheres. E nas derradeiras cenas, quando Koreeda segue as crianças enfim dispersas, de volta às suas famílias “legítimas”, essa subversão encontra imagens poderosas e comoventes (o derradeiro plano antes do corte para o genérico final é soberbo), a sua violência a voltar-se para um retrato “classista” do Japão, a contrapor conforto material e calor emocional, a perguntar o que é, realmente, uma família.

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