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Crítica

O homem sem qualidades

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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É o momento pelo qual a multidão aguardava, o momento em que Paolo Sorrentino, um dos cineastas mais odiados da intelligentsia contemporânea, dá o tropeção tão desejado pelos haters: Silvio e os Outros, olhar sobre o fim da era Silvio Berlusconi, nasceu em Itália como dois filmes separados estreados com um mês de intervalo, falhou o circuito de festivais, estreia fora do seu país natal como um único filme de duas horas e meia, espécie de monstro de Frankenstein rejeitado. A certa altura em Silvio e os Outros, alguém diz “quando os jogos acabarem, restará o espelho” — e sempre tivemos a sensação que, ao falar da Itália como o fez em Il Divo ou A Grande Beleza ou mesmo na sua série televisiva The Young Pope, Sorrentino também estava a falar de si, como se o seu cinema vistoso e ostentatório fosse a única maneira que tinha de poder filmar o país que o rodeava.

Silvio e os Outros seria, então, o momento de olhar para o espelho — ao contar o estertor dos anos Berlusconi como uma longuíssima e ininterrupta encenação sobre o vazio, um fim de festa onde todos se agarram ao passado como se ainda fosse possível recuperá-lo, o novo filme é o reverso da Grande Beleza, as traseiras da fachada da dolce vita que afinal não passou de um enorme telão trompe-l’oeil. “Sempre foste um farsante” é a acusação que Veronica lança a Silvio, “homem sem qualidades” que soube sempre ser um quadro em branco aproveitando-se daquilo que todos os outros nele projectavam. Não é por acaso que a primeira “parte” do filme, o seu nome quase nunca é mencionado: é sempre “Ele”, o homem com o toque de Midas, capaz de tornar todos os sonhos realidade, “padrinho” cuja bênção todos procuram e que lhes pode abrir as portas do sucesso, big brother que cria uma outra realidade que, mais tarde ou mais cedo, cairá por terra.

Sorrentino nunca se decide entre acreditar nessa ostentação e denunciar o seu grotesco; compreende a grandeza da fachada e também a pequenez de quem a sustenta, oscila entre a condescendência e a compreensão, sempre filmando com aqueles gestos de grandiosidade espampanante que são a sua marca registada. E Silvio e os Outros nunca é mais do que uma “sequela” não assumida da Grande Beleza, um olhar para o fim da festa e para o pôr a nu do homem que estava no seu centro e daqueles que o facilitaram, dividido entre celebrar o final de uma era insustentável e lamentar as oportunidades satíricas que vão desaparecer. Não é por acaso que tudo acaba com a tragédia do terramoto de Aquila – momento onde já não há fachada possível, “fim do mundo” que, como Eliot diria, acontece não com uma explosão mas com um soluço. Depois disto, fica o quê?

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