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Crítica

Todos para a piscina

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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O grande filme de piscinas, pelo menos nas últimas décadas, é o Palombella Rossa de Nanni Moretti. Ou Nadas ou te Afundas, sendo coisa bem diferente (a todos os níveis, incluindo o qualitativo), olha para a piscina de maneira aproximável à de Moretti nesse filme: é um reduto uterino, maternal, confortável e, tudo isto junto, suficientemente regressivo para cumprir uma função revigorante. Feita as contas, é praticamente todo o sentido do filme de Lellouche, comédia acabrunhada sobre uma masculinidade deprimida, personificada por um grupo de homens na mó de baixo (a cargo de um elenco variado e irrepreensível, liderado por um Mathieu Amalric que está como peixe na água, passe a graça fácil, nestes papéis de macho titubeante), que se junta para formar uma equipa de natação sincronizada e ir à Suécia competir nos campeonatos do mundo (o que é uma forma igualmente irónica de virar do avesso os “privilégios de género”, visto que a natação sincronizada é uma disciplina quase exclusivamente feminina).

Bastante “pop”, até nos contornos musicais (ainda mal começou e já estamos a ouvir o Marquee Moon dos Television), às vezes excessivamente pela forma como esse tipo de adereços vem reforçar o intento de não levar as coisas muito para além de uma superfície mais ou menos anedótica, o toque mais especial do filme não reside na análise aprofundada da “crise da masculinidade” nem sequer num olhar sobre a psicologia da depressão — antes, e justamente, tomar tudo pelo seu valor facial, tirar o máximo partido das situações, sabendo bem que há poucas coisas mais divertidas vistas de fora (como o comprova uma vasta tradição cómica, que também inclui Moretti) do que um homem deprimido. Multiplicando os homens deprimidos multiplica-se também a diversão, sem perder o cuidado no tratamento de cada uma das personagens (que nunca são “anedotas” ambulantes) e pedindo aos actores que se comportem como se não soubessem que estão numa comédia, a trabalharem numa gravidade que parece sempre excessiva (mas consentânea com o estado depressivo) no contraste com os traços mais anedóticos do argumento — mas também é por isso que o “grand finale”, a actuação da improvisada equipa de bailado aquático, pode funcionar com o sentido de catarse pretendido. Duvidamos que Gilles Lellouche quisesse muito mais do que isto, juntar personagens coloridas numa situação absurda narrada em tons de comédia caída. Tarefa levada a bom porto, suficientemente compensadora.

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