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Crítica

Uma furtiva lágrima

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Porque é que há esta insistência tão grande em voltar aos locais onde fomos felizes, sabendo que não é possível recuperar a magia do primeiro contacto? Mary Poppins visto no Tivoli, numa reposição dos anos 1970 com a sala cheia, era uma ocasião para acreditar por inteiro na magia do cinema, na capacidade de as amas serem mágicas e voarem com chapéus de chuva e levarem as crianças ignoradas pelo pai para aventuras indescritíveis que pareciam só existir na imaginação. Para o bem e para o mal, a adaptação das histórias de P. L. Travers feita em 1964 por Walt Disney, com Julie Andrews no papel principal e sob a direcção de Robert Stevenson, tornou-se num clássico para toda a família, mas a magia que o filme emanava não pode ser (não devia ser…) repetida cinquenta anos mais tarde.

E, contudo, a lágrima sorrateira que fica ao canto do olho à saída de O Regresso de Mary Poppins não engana. É seguríssimo que muitos dos miúdos de hoje, para os quais um clássico da Disney é um Rei Leão ou um Frozen, habituados a outro tipo de humor, de música, de ritmo, vão passar ao lado da magia que este regresso da ama voadora, sob os traços de Emily Blunt (num rasgo de casting inspiradíssimo), tem para aqueles com uma memória viva do original. O que não vai ser ajudado pela opção de tornar esta sequela (que decorre vinte anos depois do original, com Michael e Jane crescidos e com filhos próprios na Inglaterra da Grande Depressão) numa “cópia a papel químico” de Mary Poppins: um musical tradicional criado para cinema, com canções originais (excelentes, de Scott Wittman e Marc Shaiman) e números e coreografias clássicas, onde cada sequência do original (até mesmo o devaneio animado de Supercalifragilisticexpialidocious) tem o seu devido equivalente.

Mas é também essa teimosia em se ater a um molde clássico — que Rob Marshall (Chicago, Nove) já tivera com bons resultados na óptima adaptação de Caminhos da Floresta de Stephen Sondheim para a Disney há alguns anos — que é a sua salvação. O Regresso de Mary Poppins sabe que não tem Julie Andrews nem o peso que o original ganhou na nostalgia cinéfila de toda uma geração; isso de certa maneira liberta-o para ser um pastiche/tributo que dispensa a originalidade mas é feito com muito amor, muita entrega e, sobretudo, uma capacidade rara hoje em dia de acreditar na magia. É ver o sorriso que Lin-Michael Miranda (que Hamilton tornou no novo menino querido da Broadway) arvora de ponta a ponta no filme; é ver a graça e a inocência dos três estupendos miúdos que a produção encontrou para ser os novos filhos Banks; é ver, sobretudo, a elegância, a levitação, a aparente ausência de esforço com que Emily Blunt encarna Mary, sempre com uma estranha melancolia a passar-lhe pelos olhos sem nunca impedir uma presença magnética, contagiante, inteira.

E, pelo meio de um objecto que tem tanto de evidente “estratégia de produção” da Disney (é, marquem o que vos dizemos, um sucesso da Broadway em potência), há tanto de deslumbrantemente simples que nos comove sem apelo nem agravo: um corpo de baile em movimento, um sorriso, um olhar, um papagaio remendado, um fugaz relance ao espelho. E a sensação de que, tal como acontecia no final de Mary Poppins, há uma furtiva lágrima a vir-nos aos olhos. Não é uma simples questão de nostalgia; é mesmo a capacidade de reconhecer a magia quando a vemos. O Regresso de Mary Poppins tem-na, contra todas as expectativas. Pode ter andado ausente, mas é tão bom voltar a encontrá-la.

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