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Crítica

As entranhas americanas, outra vez

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Um “apocalipse pop”, que vai dos jogos de computador a Kurt Cobain, passando pela Playboy, e arranca como a Janela Indiscreta de Hitchcock, com o protagonista (Andrew Garfield) a espiar a vizinhança com os seus binóculos, e depois a ficar intrigado com o desaparecimento de uma vizinha. Junte-se a isto o “paladar” da contemporaneidade, muito americana mas cada vez menos só americana, representado pelas teorias da conspiração e histórias mirabolantes que circulam pelos porões da Internet e outros fóruns, e é fácil perceber por que é que O Mistério de Silver Lake chega como hit do circuito dos “independentes” americanos: o filme explode em zeitgeist, até no misticismo de quem acredita que há mesmo “mistérios” por detrás disto tudo.

Infelizmente, não explode em mais coisa nenhuma. Para lá da malha referencial, é a enésima variação sobre a grande estranheza americana, a que se esconde nos subúrbios ou nas zonas rurais, vista pelo olhar sobranceiro do cosmopolita. Evidentemente, Mitchell não gosta por aí além daquele mundo, e, o que é pior, nem gosta especialmente das personagens, e não perde tempo a manifestar o desprezo por elas (que outra coisa significa aquele plano subjectivo durante o sexo, debaixo de um poster dos Nirvana, que é não apenas disparatado mas sintoma imediato do olhar profundamente desagradável que Mitchell tem a propor sobre a sua história?). Depois, é o desbobinar de uma história de “revelação”, cheia de tempero e caução, ao longo da qual, francamente, se sofre bastante — e não apenas pelas quase duas horas e meia que isto dura.

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