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Crítica

Baile de máscaras

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Começamos assim: tudo aponta para que Colette seja mais um daqueles impecáveis biopics de época à boa maneira britânica, actores no ponto certo, reconstituição de época inatacável, profissionalismo e competência a compensar o anonimato ou a falta de inteligência. A figura, desta vez, é Gabrielle-Sidonie Colette (1873-1954), a cronista da Belle Époque francesa que as gerações posteriores ligaram para sempre ao imortal Gigi de Minnelli — mas também uma das mais queridas e aclamadas escritoras francesas do século XX, improvável e ardente lutadora contra os estereótipos de género. Concentrando-se nos vinte anos do seu casamento com o escritor e bon vivant Willy Gauthier-Villars (aproximadamente entre 1890 e 1910), o filme de Wash Westmoreland (O Meu Nome é Alice) adquire os contornos de retrato de uma mulher forte a resistir ao colete de forças de uma sociedade patriarcal, desenhando Paris como um constante baile de máscaras onde o importante era projectar uma personalidade construída, representar um papel. Willy fá-lo na perfeição, endividando-se até à quinta casa e contratando escritores na penúria para escreverem os livros que depois publicava sob o seu próprio nome, mantendo affaires escondidos com o rabo de fora; Colette prefere ser ela própria, dentro do que lhe era permitido por um casamento muito livre para os padrões da altura, onde cada um era livre de procurar outras parceiras.

Colette aflora o tema da “escritora fantasma” que ainda recentemente deu a Glenn Close o papelão de A Mulher (os primeiros textos da autora foram publicados em nome do marido). Mas que lhe interessa mais é encarar a naturalidade com que o casamento de Colette e Willy foi uma espécie de fugaz utopia vanguardista de liberdade sexual e social — Willy tinha as suas amantes regulares, Colette manteve durante longos anos uma relação lésbica com a marquesa de Belbeuf. E, nessa lógica, aproveitar o embalo confortável do filme de época à inglesa para lançar um questionamento das próprias convenções sociais, contando a história de uma mulher que se libertou da ordem patriarcal estabelecida sendo apenas ela própria. Sempre sem deixar de sublinhar que Colette teve privilégios que outras não tinham, nem esconder (através da relação apaixonada e conflituosa do casal, impecavelmente interpretado por Keira Knightley e Dominic West) que não é possível compartimentalizar coisas tão interligadas em gavetas distintas.

Westmoreland, que se estreia a dirigir a solo depois da morte do seu marido e co-realizador habitual Richard Glatzer (com quem ainda escreveu o argumento), concentra a sua câmara na presença sempre a levantar fervura de Knightley, não tem problema em prolongar um plano pelo tempo que for necessário (o que dá ao filme uma interessante e confortável languidez). Colette, como tantas das figuras com quem a escritora se cruza ao longo do filme, está a representar o papel do sumptuoso melodrama de época mas, na verdade, é um retrato atento, nos interstícios, de uma mulher à frente do seu tempo. Não descobre a pólvora, mas é melhor do que poderíamos esperar.

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