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Crítica

A infância de um ídolo teen

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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O segundo filme de Brady Corbet (depois de A Infância de um Líder) volta a mostrá-lo como possuidor de uma sensibilidade algo estranha no panorama dos realizadores americanos da sua geração, uma sensibilidade que se diria bastante “europeia”, e mais especificamente até bastante “nórdica” (aquela frieza, algo misantrópica, que vai de Haneke à Escandinávia), visível também na forma como almeja o “filme de arte”, com toda a grandiloquência que vai a par com semelhante desígnio (sem prejuízo, e é aí que Corbet até se torna minimamente intrigante, de alguma sinceridade).

A Infância de um Líder era uma reflexão sobre a formação da psicologia de um líder autoritário, em remissão directa para os fascismos europeus dos anos 1920 e 1930. Vox Lux, mudando o contexto, recupera alguns desses elementos: é, ainda, o “carisma”, entendido na acepção mais ambígua do termo, a ocupar o centro do olhar de Corbet. O “carisma” enquanto veículo para a manipulação de massas, agora consubstanciado na figura de uma vedeta “pop” decalcada de inúmeras vedetas “pop” de existência real: é a personagem da cantora Celeste (interpretada por Natalie Portman na idade adulta, na segunda parte do filme), que emerge de um mass shooting num liceu americano (acontecimentos que ocupam toda a primeira parte) enquanto estrela de primeira ordem – a superficialidade das “redes sociais”, a fama instantânea, a espectacularização da desgraça (nem falta a menção ao 11 de Setembro), tudo isso é o alvo de Corbet, num moralismo algo sentencioso (e bastante artificial), que lembra bastante aquela linhagem europeia de que falámos acima (e que é sublinhada pela partitura de Scott Walker, a repetir a colaboração com Corbet, que mesmo em tudo o que tem de ostensivo contribui, de facto, para um clima de alguma assombração).

Na segunda parte, o filme muda – é quase outro filme. Celeste é adulta, vive entalada entre as suas neuroses, famílias falhadas, obrigações do estrelato, pressão mediática, e Corbet filma isso, num curto período temporal (os dias antes de um grande concerto de come back), num realismo “intensificado”, com muita câmara à mão, muita mobilidade (há pelo menos um travelling a fazer o caminho entre o hotel e um restaurante, numa rua de Manhattan, bastante impressionante), a sugerir que nesse segmento Corbet vira a agulha mais para a direcção dos psicodramas de Cassavetes (ecos remotos da Noite de Estreia ou da Mulher Sob Influência). Natalie Portman não é nenhuma Gena Rowlands, mas faz bem pela vida: é da sua entrega, muito borderline, que a segunda metade de Vox Lux vive, incluindo a “coda”, uma sucessão de números musicais – como fogos fátuos – em pleno concerto. Há aí uma contradição, não necessariamente procurada, entre a vacuidade que Corbet atribui àquele mundo e àquela concepção de espectáculo, e a intensidade de Portman. Mas é por isso que, mais uma vez, se torna intrigante, para além de haver qualquer coisa de realmente magnético na performance de Portman. Não muda nada na sensação de que em Vox Lux há mais espalhafato do que substância, mas disso se faz a relativa singularidade do objecto, que vale a pena descobrir, ainda que com inevitável ambivalência.

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