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Crítica

O sentido da vida

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Tomem nota: 93 minutos apenas, meia-dúzia de actores, uma boa história, economia de meios, economia de estilo. Aprendam, estúdios que incham os filmes com efeitos especiais à vara larga para encher o olho e durações intermináveis para justificar o investimento: nada disso é preciso para fazer um belo filme. Os estúdios já o souberam, mas esqueceram-se — por onde quisermos ver, O Cavalheiro com Arma é um flashback aos anos 1960/1970 em que realizadores como Don Siegel erguiam a série B e os filmes de género a modelo exemplar do classicismo, sem precisarem de pôr dinheiro no ecrã. Siegel, aliás, é uma presença tutelar sobre este filme, por causa de uma pequena jóia do policial-B chamada Ferro em Brasa (1974), com um grande papel de Walter Matthau como um ladrão que rouba inadvertidamente a Mafia. O Cavalheiro com Arma seria um equivalente contemporâneo dessa história, com um Robert Redford a alardear a sua classe e a sua experiência como um criminoso incorrigível, um ladrão cavalheiresco que, aos 70 anos, ainda rouba bancos com dois cúmplices de longa data (Danny Glover e Tom Waits), perseguido por um detective desajeitado (Casey Affleck).

A precisão económica com que Lowery filma as personagens — sem precisar de carregar cada plano de informação, concentrando-se no essencial e deixando sempre os actores à vontade — é aplicada a esta história picaresca, pitoresca e verídica, a que Richard Linklater teria chamado um figo (ou não se passasse tudo no Texas). É uma espécie de filme-de-golpe geriátrico onde os golpes criminosos não são o que mais importa para a narrativa; mas é o facto de eles existirem que diz tudo sobre as personagens e o que as motiva. E o que as motiva é apenas isto: sentirem-se vivos, todos os dias. É essa necessidade que leva a personagem de Redford a roubar bancos como prática quase quotidiana e a ajudar a rancheira (Sissy Spacek) cujo jipe avariou e com quem se trava de amores; e que leva o detective Affleck a decidir deixar de se encostar à bananeira para apanhar o criminoso que tem mais experiência que o departamento todo junto.

No fundo, é uma “pequena história”, fait-divers, nota de rodapé (aconteceu no Texas, nos anos 1980, o filme baseia-se num artigo da revista New Yorker). Mas é por vezes nessas notas de rodapé que se encontra o sentido da vida, sobretudo quando são contadas desta maneira desenvolta e discreta. Porque, tal como o ladrão de Redford não gosta de chamar a atenção para si próprio, também Lowery, oriundo do circuito independente, é um cineasta discreto e atento às pequenas histórias (esta é a sua quinta longa-metragem, mas apenas a segunda a merecer distribuição em Portugal depois da bem-recebida remake de A Lenda do Dragão para a Disney). Como quem não quer a coisa, O Cavalheiro com Arma é das melhores coisas que o cinema americano produziu em 2018, e uma belíssima maneira de abrir o ano cinéfilo de 2019. São 93 minutos apenas. É tudo simples e directo ao assunto. David Lowery não precisa de mais. Nós ficamos a pedir mais.

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