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Crítica

As causas perdidas

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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“As pessoas compram promessas, sonhos, e estão dispostas a tudo para não terem de ver esta merda,” diz às tantas a jornalista francesa que acompanha um batalhão de mulheres combatentes. O dilema de Mathilde (Emmanuelle Bercot) é esse: de que serve querer contar a verdade àqueles que não querem saber dela? Percebe-se que terá sido esse o desejo da francesa Eva Husson na sua segunda longa: arranjar uma maneira de interessar as pessoas na verdade, com uma ficção livremente inspirada em factos e personagens reais, no caso os batalhões femininos curdos compostos por mulheres que foram escravas do Estado Islâmico e que, em 2015, o combateram no Curdistão iraquiano.

Mas de boas intenções está o inferno cheio, e As Filhas do Sol, que estreou em Cannes 2018 com grande pompa como ponta-de-lança feminino/feminista num festival patriarcal, é um fracasso à altura das suas grandes ambições e das suas boas intenções. Husson não quer enveredar pelo miserabilismo idealista, e quer retirar às suas mulheres combatentes o estatuto de vítimas; mas cai no extremo oposto da esteticização visual e da pedagogia do ultraje, com a mão pesada de quem não confia no público para perceber o que ela quer dizer. E vai de sublinhar até se tornar cansativo os horrores que Bahar (Golshifteh Farahani) e as suas colegas sofreram em cativeiro, re-vitimizando mulheres que não querem ser vistas como vítimas. Talvez tenha tido mais olhos que barriga — as cenas de combate, por exemplo, têm uma simplicidade directa ao assunto e uma tensão emocional mais que bem-vindas, enquanto toda a história que envolve a repórter de guerra se resolve numa banalíssima procura de sentido por parte da bem-pensante má consciência ocidental. Tudo junto faz uma coisa indigesta e previsível, menos uma obra de arte que nos toca e mais uma aula de civismo que nos maça.

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