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Crítica

Vertigens

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Em Happy Hour, o filme que trouxe Ryusuke Hamaguchi ao conhecimento do público português, o mistério estava menos na narrativa do que no modo da narração. Eram cinco horas de filme, plenas de derivas, de cenas construídas com uma elasticidade variável e imprevisível, de “corredores” que afastavam e voltavam a aproximar as personagens em percursos de destino nunca certo. Asako I e II, que sucede a Happy Hour, funciona ao contrário. Mais convencional na duração e na estrutura, mais delimitado no número de personagens, é da narrativa e dos seus meandros que nasce, e cresce, a suspeita dum mistério. Tem-se falado muito num mistério do tipo de Vertigo, porque a história pode ser resumida assim: há uma rapariga (Asako) que se apaixona por um rapaz, o rapaz depois desaparece de um momento para o outro, e mais tarde a rapariga encontra outro homem, igualzinho ao primeiro (naturalmente, é o mesmo actor: Masahiro Hagashide) mas de personalidade diferente, por quem, por causa das parecenças, se volta a apaixonar, tal como no filme de Hitchcock sucedia a James Stewart com a Kim Novak I e II.

Hamaguchi começa o filme por mostrar, numa exposição de fotografia, um retrato de gémeas. O tema do “duplo” paira, pois, desde o princípio; a questão, que o filme mantém em lume brando, é saber se existe algum mistério, mais físico ou mais metafísico, mais corriqueiro ou mais sobrenatural, para a “duplicação” do amor de Asako. Tudo é apontado de forma bastante casual, sem explicações psicológicas, sem diálogos de profundidade evidente, e os ambientes dão a ver um quotidiano de mundanidades, ruas, casas, cafés, sem qualquer atributo especial (embora haja uma notável cena, lá para o final, em circunstância especiais, durante o terramoto de 2011 que já estivera na origem remota de Happy Hour, e que aqui acaba por ter uma ressonância parecida com a do final da Viagem a Itália de Rossellini, quando o casal é separado pela multidão).

Ao mesmo tempo quem leva “numeração” no título é Asako. Ela é a “constante” do filme, mas é quem o filme distingue entre “primeira” e “segunda”. No fundo, esse é, quando as coisas “pousam”, o único mistério, que afinal não tem nada de misterioso: como se Hamaguchi usasse elementos de uma história sobrenatural para contar a mais natural das histórias, a de uma mulher que amadurece e se torna “outra”, amadurecendo e tornando-se igualmente “outra” a sua relação com o amor (o retrato dos dois homens favorece essa ideia, o primeiro sendo um estroina “rebelde” e impulsivo, o segundo um indivíduo cinzento e atilado). Fica-se, no fim, com a imagem dum rio, talvez o momento em que Hamaguchi mais investe o seu registo realista de propriedades simbólicas – que “explicam” o essencial do filme. Que não tem a surpresa nem o fulgor de Happy Hour”, mas confirma Hamaguchi como um cineasta sui generis.

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