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Crítica

O meu filho é uma estrela do porno

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Até que o Porno nos Separe é um filme sobre um confronto de mundos e de mentalidades, onde a pornografia, mais do que se tornar “tema”, cumpre essencialmente a função simbólica de assinalar a barreira, a priori intransponível, que separa esses mundos e essas mentalidades. Resumidamente, conta a história de uma senhora, sexagenária, católica, conservadora, que descobre que o filho, emigrante na Alemanha, é uma vedeta, à escala europeia, da pornografia gay. A repulsa que a descoberta, feita pela internet (dada aqui como “chave-mestra” para abrir todos os segredos do mundo), inicialmente lhe suscita colide, no entanto, com o amor de mãe, e a senhora, enchendo-se de coragem, contraria a aversão para se aproximar do filho e perceber, ou pelo menos conhecer, aquele mundo.

É um documentário “de personagem”, que frequentemente nos deixa a sós com a senhora e as suas reflexões em voz alta, por vezes assumindo uma forma quase “epistolar” quando lê as mensagens, realmente enviadas ou apenas pensadas, com que comunica com o filho. São os melhores momentos dos filme, aqueles em que Jorge Pelicano mais e melhor persegue uma estrutura que fuja aos trâmites importados de um modelo de reportagem televisiva, pecha maior dos seus filmes anteriores, e em que este incorre menos. Menos, mas não completamente, porque à medida que o filme se vai aproximando do fim vai perdendo esse centro definido para se tornar também um filme sobre o filho, e de certa forma também um filme sobre a indústria da pornografia (que, no princípio, aparecia duma forma quase “fantasmática”, como um temor da imaginação da senhora). É também uma história de “conversão”, e de como a mãe do rapaz, que começa o filme em repugnância, se transforma no final em activista dos direitos LGBT, participando em manifestações no centro do Porto — mas falta ao filme a força, digamos “dramática”, para dar essa conversão com outra profundidade, ou que pelo menos releve mais o “atrito” que toda a conversão precisa, em primeiro lugar de vencer. Ainda assim, é um filme simpático, mesmo no seu didactismo porventura demasiado linear, ou precisamente por causa disso, visto que parece traduzir uma forma de franqueza e um genuíno interesse na história que tem para contar, evitando o sensacionalismo e os julgamentos apressados.

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