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Crítica

A odisseia de um poeta vadio

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Com as suas paisagens da Florida, entre Miami e as Keys, The Beach Bum é como um lado B para Spring Breakers, o anterior filme de Harmony Korine. Um lado B “conceptual”, que vai pelo caminho contrário do lado A: se, fiel à sua predilecção por figuras monstruosas, Korine filmara em Spring Breakers os monstros do conformismo (as adolescentes fotocopiadas umas das outras, por sua vez fotocopiadas dos estereótipos da predominante cultura teen americana), em The Beach Bum filma um monstro do inconformismo e de uma espécie de contracultura, nada predominante.

É ele Moondog, personagem interpretada por Matthew McConaughey (que nunca ninguém viu nestes preparos: cabeleira loura, robes coloridos, tangas...), poeta selvagem e caótico que tira toda a sua inspiração do excesso e da desordem (por aí, The Beach Bum também podia ser um lado B para o Paterson de Jim Jarmusch), e vive em permanente estado de embriaguez, literal e figurada. Moondog publicou uns poemas há uns anos, que lhe deram certa notoriedade, mas nunca mais escreveu nada e vive às custas da mulher, que é rica. Mas a mulher (Isla Fisher) morre num acidente de automóvel (que é a sequência mais dramática do filme, e em que Korine melhor usa aquele seu tipo de montagem alternada “retrospectiva”, a fazer dialogar planos de flash-back e de flash-forward) e deixa em testamento que Moondog só herdará a fortuna e a propriedade dela quando voltar a publicar. Expulso de casa, sem outro remédio, tem mesmo que escrever.

E é só isto, a história, mesmo que “isto” pudesse ser uma declinação de tragédia grega (o herói banido que tem que cumprir certa tarefa para poder voltar a casa). Para mais, não há nenhuma angústia na personagem, feita de pura “joie de vivre”, espécie de super-herói hedonista em constante estado de euforia (algo que McConaughey aguenta muito bem, sempre de sorriso pedrado, a deter-se um milímetro antes do puro cartoon). Não se trata, definitivamente, de um filme sobre as agruras da criação poética — Moondog escreve na praia, nos bares, e raramente se ouve ou lê uma linha do que ele escreva (fica tudo em elipse, o que também é bastante lado B de Paterson). É quase apenas um pretexto para Korine seguir a odisseia de um poeta vadio, por episódios progressivamente delirantes que envolvem fugas de centros de rehab (porque ele obviamente diz “não, não, não”) e, na mais divertida sequência de todas, um barco turístico para observação de golfinhos que afinal eram tubarões. Ou pretexto para filmar um longo bailado de McConaughey (a maneira como ele se mexe talvez seja o principal foco de atenção da câmara de Korine), temperado por luzes e néons, música dos Cure e de Van Morrison, e uns versos de Baudelaire ditos ao sol da Florida (o melhor efeito de “deslocamento” em todo o filme). Quando começamos a pensar que isto, não sendo desagradável, não parece ir a lado nenhum, ou que se arrasta, ou que se torna cansativo, vem a sequência final, bastante conseguida, a dar ao filme uma coerência de que ele parecera fugir até então: é um final “anti-tudo” (anti-social, anti-capitalista, anti-artístico), uma grande “instalação” de Moondog que é a sua derradeira (e maior) obra poética antes de o filme o abandonar, como um herói grego, sozinho no mar. Concilia-nos com os aspectos mais discutíveis do estilo de Korine, reconcilia-nos com os altos e baixos do carrossel que o filme todo é, e, digamos assim, faz-nos sair de coração cheio. Sabe bem ver The Beach Bum, coisa que não se diz de todo os filmes, mesmo de alguns muito melhores do que este.

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