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Crítica

A Arábia made in USA

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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A Disney, mesmo quando ainda era dirigida pelo fundador Walt, sempre se dedicou a uma forma de reciclagem, apropriando-se de histórias do património narrativo mundial, devolvendo-as, da Branca de Neve ao Peter Pan e tantos outros, em versões que consolidavam o lugar dessas narrativas no imaginário de gente do mundo inteiro.

Chegados ao século XXI, parece que já não há mais histórias, como se tivesse vindo o tempo da auto-reciclagem: este Aladdin é versão live action da história que a Disney já tinha produzido, em 1992, em desenho animado (e um tratamento semelhante foi dado ao Rei Leão, de que se anuncia um remake já para o Verão deste ano).

A coisa mais singular de Aladdin é o nome do realizador, Guy Ritchie, que vem (cinematograficamente) do submundo do gangsterismo britânico e de filmes cheios de palavrões, violência, droga e e outros vícios, e que dificilmente se imaginaria a ser escolhido para uma produção com estas características, vocacionada para crianças e famílias. Não que isso faça diferença alguma, já que Ritchie nunca foi propriamente um estilista, e aqui como noutros casos o realizador é sobretudo um “gestor de rodagem”, a “autoria” vem de outro lado, é uma questão corporate.

Tendo tudo isto em conta, ou mesmo sem ter tudo isto em conta, o resultado podia ser bem pior. Há uma certa sagacidade, até, na forma como o filme se desembaraça do lado musical (novamente canções de Alan Menken, como na versão de 1992), parecendo reduzir, e até abreviar, esses momentos – porque, francamente, a arte do “musical integrado” perdeu-se há muito tempo, e a entrada das canções parece quase sempre uma paragem no movimento do filme.

Mas há sequências movimentadas e com alguma imaginação, um sentido de humor que salva o filme dos seus momentos de maior sisudez (sobretudo, mas não só, a cargo de Will Smith, que faz do “génio da lâmpada” uma espécie de cómico de stand up em número permanente), uma paleta cromática cheia de cores vivas, que sempre distrai o olho e dá um ar visualmente festivo ao filme, e ainda, o que daria pano para mangas, uma curiosa imaginação made in USA do mundo árabe (obviamente, sem religião), uma Arabia felix onde o mal está claramente identificado (o malvado Jafar) e fora ele tudo é um conto de fadas.

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