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Crítica

O homem das abomináveis neves

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Mais inspirado na moda dos reality shows de sobrevivência do que no espírito de um Robinson Crusoe das neves polares, Árctico não deixa por isso de retomar o clássico tema do homem isolado numa natureza adversa, e que precisa de reinventar diariamente a “civilização” para resistir.

O homem é Mads Mikkelsen (praticamente em one man show), tripulante de um avião que se despenhou algures no Árctico, e a quem só resta esperar que alguma equipa de socorros sobrevoe o local e dê por ele. O filme de Joe Penna (brasileiro com fama de youtuber que aqui assina a sua estreia em cinema) narra a história dessa espera, entre as rotinas de sobrevivência do protagonista e os movimentos, mais ou menos às cegas, com que Mikkelsen (carregando a maca da sua enferma companheira de infortúnio) se tenta pôr a jeito de ser visto pelas equipas de buscas.

Se o filme tem algum interesse durante a primeira vintena de minutos (as rotinas, justamente, mais, na melhor cena do filme, o encontro frustrado com o helicóptero de socorros de onde aparecerá a variação de Sexta-Feira), depressa se instala o enfado. Penna é incapaz de fazer sentir alguma coisa para lá do seu relato, bastante tépido (trocadilho pretendido), das desventuras das suas personagens. E o principal sinal dessa incapacidade (ou dessa insensibilidade) é a presença constante da música: o filme chama-se Árctico, mas tem medo do silêncio do Árctico, da solidão do Árctico, da aspereza do Árctico. Fica uma natureza de screen saver, sugerida mas nunca realmente expressa, ou experimentada — está sempre a música ali a amparar a violência da paisagem, assim como nenhuma sequência é capaz (e bastava copiar, por exemplo, um bocadinho do que Béla Tarr fez no Cavalo de Turim) de restituir o esforço físico da personagem de Mikkelsen: quando quer assinalá-lo, Penna faz close up à cara do actor e à sua máscara de esforço, e é assim que ficamos, na pura “indicação”. Torna-se tudo irritantemente confortável, como se o espectador fosse convidado a ver Mikkelsen a tiritar de frio mas sem sair do quentinho do seu lugar na plateia. E, com isso, esboroa-se tudo o que as premissas do filme pudessem conter de interessante.

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