Menu
Crítica

Nureyev e a guerra quente

Autor da crítica: Jorge Mourinha

  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Quando Rudolf Nureyev está em digressão com o ballet Kirov de Leninegrado em Paris, em 1961, Ralph Fiennes mostra-o a dizer: “não quero saber de política, apenas de dança”. No final do seu mês e meio em Paris, pediu asilo em França — o que era, claro, um acto político de recusa do regime soviético, mas nascia primordialmente da convicção do seu próprio talento, e da compreensão que esse talento não poderia florescer devidamente na “igualitária” URSS. O acto político era um acto de profundo egoísmo: “o regime que se lixe, eu sou bom demais para uma URSS que não me sabe apreciar e me quer atirar para teatrinhos de província para educar o povo”. E O Corvo Branco — inspirado na biografia do bailarino escrita por Julie Kavanagh — passa o tempo a dizer que Nureyev é a pessoa mais egoísta que toda a gente, soviética ou francesa ou de outra nacionalidade, alguma vez viu.

A história encarregou-se de provar que o bailarino tinha razão: Nureyev (1938-1993) era de facto um talento ímpar que dificilmente se espraiaria na então URSS. Mas o que Ralph Fiennes, na sua terceira realização, está mais interessado em explorar não é a “guerra fria” entre regimes: é a “guerra quente” entre técnica e emoção. No papel de Alexander Pushkin, o mestre com quem Nureyev teve aulas, Fiennes diz às tantas: “Passamos tanto tempo preocupados com a técnica que nos esquecemos da história que queremos contar”. É aí que encontramos a diferença entre o aluno aplicado mas pouco imaginativo e o aluno inspirado que absorveu toda a técnica e a usou para ir mais longe.

Fiennes sugere que essa inspiração, que o tornou no referencial de toda uma geração de bailarinos, vinha também do seu próprio estatuto de outsider: mesmo num sistema supostamente igualitário, Nureyev era um “camponês rude”, nascido num comboio em movimento, que comçeou a estudar tarde e sentia um complexo de inferioridade, amplificado pela convicção arrogante de saber que o seu talento era diferente dos outros todos. No papel de Nureyev, o bailarino Oleg Ivenko recria na perfeição essa postura complexada e arrogante, esse distanciamento auto-imposto que separa os “chamados” dos outros todos. “Corvo branco”, aliás, é um idioma russo para descrever aqueles tocados pela diferença, pelo génio.

Paradoxalmente, “transcender” é coisa que Fiennes não faz enquanto realizador: sabe a história que quer contar e aplica-se a contá-la de maneira desembaraçada mas sem rasgos, como se os únicos rasgos que aqui pudessem existir fossem os de Nureyev. As cenas de bailado são filmadas com bem-vinda sobriedade, a construção narrativa em três tempos (a cargo do veterano David Hare) é claríssima, a aplicação da “qualidade britânica” é exemplar de discrição. E este filme, que é sobre a arte e sobre a dedicação à arte, acaba, também, por ser um filme sobre a arte como política e a política como arte — sobre como o génio apenas se manifesta quando não cede ao compromisso. O que, sendo artístico, é também político.

Topo
Pesquisar
© 2011 PÚBLICO Comunicação Social SA