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Crítica

Brincar, outra vez, aos clássicos

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Não havia necessidade, como diria o Diácono Remédios: confessamos o pé atrás com que entrámos na quarta aventura do xerife Woody e do astronauta Buzz Lightyear, quase dez anos depois de Toy Story 3 (2010). Fazia falta um quarto Toy Story? Não. A série poderia ter fechado com o terceiro e seria perfeito; nos anos entretanto decorridos, o estúdio fundado por Steve Jobs e John Lasseter foi vendido à Disney e cedeu à pecha das sequelas desnecessárias (vide Monstros: A Universidade ou o segundo e terceiro Carros). E Lasseter (entretanto promovido a responsável da animação da Disney) abandonou o estúdio em 2018, apanhado na voragem dos movimentos femininos #MeToo.

Mas convém sempre não dar a Pixar por moribunda, como Coco em 2017 e o Incredibles 2 de 2018 já tinham dado a entender. Toy Story 4, dirigido por Josh Cooley (animador que co-escreveu Divertida-Mente) é uma excelente “coda” para as aventuras dos brinquedos de Andy e Bonnie, e um filme que mantém intacta a “ética de trabalho” do estúdio: um argumento que não se impõe às personagens mas antes decorre das suas especificidades. Que traz oito argumentistas creditados (entre os quais a comediante Rashida Jones e o “veterano” do estúdio Andrew Stanton, autor de Wall-E e À Procura de Nemo) mas que nunca parece “feito por comité”; e que permite aos animadores darem largas a uma criatividade que está sempre ao serviço da história.

Toy Story é uma metáfora existencialista sobre a consciência e a necessidade de amor (em todos os filmes há sempre alguém que tem de ouvir “TU… ÉS… UM… BRINQUEDO!”) e este quarto episódio não desmerece. O seu fulcro é Garfy, um brinquedo improvisado pela menina Bonnie na creche a partir de um garfo de plástico, a quem Woody tem de ensinar o seu novo papel; o “inimigo” é Gabby Gabby, uma boneca com defeito de origem disposta a tudo para abandonar a prateleira onde reside há anos. Tudo, portanto, na mesma — mas se Toy Story 4 parece uma variação sobre o tema, é uma variação tão inteligentemente urdida e repleta de invenções visuais e narrativas que esse “mais do mesmo” se torna “outra coisa”. Veja-se como a pastora Bo-Peep, aqui regressada depois de estar ausente no terceiro filme, se torna na heroína do filme (e, de caminho, mete no chinelo todas as Capitãs Marvel e outras Mulheres Maravilha dos comic-books de inspiração masculina e envergonha todos os esforços pró-feministas da indústria).

Todas as “máquinas de serialização” em que os filmes se parecem ter tornado (e, ironicamente, muito por conta da Disney e das suas infinitas sequelas de super-heróis e recriações em imagem real de personagens animadas) podiam aprender umas coisas com o que a Pixar faz aqui: contar histórias que falem às pessoas, e fazê-lo sem partir do princípio que as pessoas apenas querem mais do mesmo. Que o mesmo é dizer, como escrevia Anthony Lane na New Yorker, que Toy Story 4 chuta para canto a quase totalidade dos filmes ditos para adultos que Hollywood quer fazer passar como cinema hoje em dia. Não é outro Toy Story 3? Não. Mas é um dos melhores filmes americanos que vimos em 2019, ponto final. Tirem daí as vossas conclusões.

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