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Crítica

Um mundo sem Beatles e sem talento

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

O argumento é de Richard Curtis, um dos instigadores da comédia romântica britânica das últimas décadas (escreveu Quatro Casamentos e um Funeral, O Amor Acontece, entre outros filmes não desprovidos de charme), e a premissa é singular: a imaginação de um mundo onde os Beatles nunca existiram, ou, o que vai dar ao mesmo, desapareceram da memória colectiva. Quando o protagonista (Himesh Patel), um songwriter semi-falhado e muito frustrado, desperta do torpor causado por um acidente de bicicleta durante um misterioso blackout mundial, e descobre com espanto que uma canção como Yesterday, subitamente, já não diz nada a ninguém e ninguém é capaz de a reconhecer, pensamos que o filme até tem algo a que se agarrar: ser, por exemplo, uma espécie de “pós-Fahrenheit 451”, substituindo os homens-livro de Bradbury (e Truffaut) por um homem-disco com a missão solitária de fazer perdurar as obras de Lennon, McCartney e companheiros, e a partir dai reflectir, ou criticar, ou ecoar, a amnésia cultural do século XXI.

Ilusões: “reflectir” ou “dizer alguma coisa” são expressões desadequadas ao cinema de Danny Boyle, como por esta altura já devíamos estar mais do que avisados. E quando o filme faz entrar, sem qualquer ironia, Ed Sheeran como o mais legítimo equivalente contemporâneo dos Beatles, percebe-se que isto está destinado a dar asneira. E dá, da mais pindérica possível, entre atrozes covers das canções dos Beatles (que, ainda assim, resistem), e um sentimentalismo de cordel que vai das questões românticas propriamente ditas (o “sucesso” versus “o amor verdadeiro”, dilema nunca visto) à ligeira, e nunca convenientemente explorada, angústia do protagonista no que toca à questão da “autoria” das canções que lhe trazem fama. Não acaba sem um momento supremamente ridículo: o encontro com o John Lennon deste mundo “alternativo”, que vive solitário e isolado (porque obviamente se os Beatles foram esquecidos também nunca houve Mark Chapman) numa cabana à beira-mar, e é posto a dizer umas platitudes “filosóficas” ofensivas para o verdadeiro Lennon e, sobretudo, para o espectador. Verdadeiramente péssimo, uma peça de quinquilharia pop plastificada, com a profundidade cultural dos concursos de talentos da televisão.

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