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Crítica

Ensaio sobre a cegueira

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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É uma bela bofetada de luva branca à hegemonia americana, esta Ameaça em Alto Mar – inscrito na honrosa linhagem dos thrillers de submarinos que nos deu A Caça ao Outubro Vermelho ou K-19, o primeiro (!) filme do francês Antonin Baudry vai mais lá atrás, com ecos dos thrillers apocalípticos dos anos 1960 como Missão Suicida de Sidney Lumet. E a coisa não é para menos: este é um jogo de xadrez geoestratégico cheio de armadilhas onde pôr o pé no sítio errado pode espoletar uma guerra nuclear, e só um ouvido de excepção pode notar a diferença entre um transeunte e um inimigo. Aliás, está mesmo aí um dos grandes trunfos de Ameaça em Alto Mar: tudo se joga literalmente no que não se vê, nas “assinaturas sonoras” (bela definição) invisíveis a olho nu, mas que são tão inconfundíveis como uma cicatriz ou um sinal.

Partindo da história de um analista de sonar num submarino francês em missão que apanha de repente uma assinatura sonora desconhecida, e nas consequências imprevisíveis que isso tem na política global, Baudry constrói, pacientemente e com assinalável inteligência, um thriller tenso e eficaz, de irrepreensível acabamento técnico e surpreendente solidez narrativa, que tira máximo partido da claustrofobia do submarino e da sua “cegueira”. Cegueira essa que não é apenas visual, mas é também interior (se há coisa que Baudry problematiza com elegância é o facto de só vermos, verdadeiramente, aquilo que está à frente dos olhos). Hollywood sabia fazer estes filmes com uma perna atrás das costas antes de esquecer tudo em nome dos franchises; a surpresa maior é que um realizador novato francês, que fez carreira como diplomata e tem no seu currículo cinematográfico anterior apenas o guião de Palácio das Necessidades, de Bertrand Tavernier, apareça logo ao primeiro filme com uma obra que — sem inventar nada — pede meças a quase todo o blockbuster americano moderno, e isso sem cair no esquematismo de BD de que Luc Besson tanto gosta (e Ameaça em Alto Mar chuta para canto o Kursk que Besson produziu recentemente). 

Andam a fazer falta thrillers assim, que sejam inteligentes e não tomem o espectador por burro, que não precisem de carregar a traço grosso nos “temas” para garantir que as pessoas os percebem, que nos mantenham na ponta do assento sem saber o que vai acontecer a seguir. Ironia máxima: depois de um significativo êxito de bilheteira em França, Ameaça em Alto Mar seguiu para o Netflix em grande parte do mundo (EUA inclusive), em Portugal chega discretamente às salas. Destino cruel para um filme cuja factura técnica (o trabalho de som, supervisionado por Randy Thom, que trabalhou com David Lynch, George Lucas e a Pixar, é luxuoso) que exige ser visto no grande ecrã; aproveitem enquanto podem.

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