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Crítica

A noite dum filme morto-vivo

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

Produzido por Guillermo del Toro, realizado por André Ovredal, Histórias Assustadoras para Contar no Escuro é uma espécie de joint venture mexicano-norueguesa, made in USA mas rodada no Canadá. Tanta dispersão geográfica não teria mal nenhum - toda a gente gosta de ver as nações unidas - se o espectador não sentisse que o filme, começando a deslaçar desde o primeiro instante, rapidamente se transforma numa salganhada em que cada coisa puxa para seu lado de maneira completamente inorgânica.

Histórias Assustadoras para Contar no Escuro (que se baseia nas histórias de terror para um público juvenil do escritor americano Alvin Schwartz) hesita entre o macabro neurótico do horror nórdico (Ovredal ganhou fama com A Autópsia de Jane Doe) e a “fantasia” pasmada e infantil típica de del Toro, hesita entre ser mais Disney ou mais Romero (A Noite dos Mortos Vivos é expressamente citado numa cena num drive-in), mas parece ser dirigido a quem talvez tenha visto Disney mas nunca viu Romero, nem Carpenter (aquelas notas de piano arrancadas à extremidade direita do teclado que enxameiam a banda sonora parecem quase um plágio), e portanto exista num estado de virgindade que o leve a crer que Histórias Assustadoras contém alguma ideia fresca ou original. Não contém, é pura mastigação de clichés, um exercício de ruminação borrachosa cujo único tempero é um timorato arremedo de oportunismo que se pretende “político”: passando-se a acção em 1968 (podia ser em 1948 ou 1988 e o essencial da história ficaria igual), metem-se uns planos de televisores com notícias da guerra do Vietname e alocuções de Richard Nixon que nada adiantam ou atrasam (e nem sequer “comentam” a narrativa), e assim, à mistura com alusões raciais também completamente desconjuntadas, convencem-se as mentes mais impressionáveis de que se trata de um filme que tem alguma coisa a dizer sobre “a América”, de ontem ou (sobretudo) de hoje. Não tem, é uma nulidade seja qual for a ponta por onde se lhe pegue.

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