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Crítica

Estar além, estar aquém

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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 Sabemo-lo todos: António Variações esteve sempre além do que se fazia em Portugal no seu tempo — de tal modo que ainda hoje não existe outro seu igual (e dificilmente virá a existir, porque o mundo mudou nas décadas entretanto decorridas). Mas, sabemo-lo também, Variações ficou aquém. Porque a sua carreira meteórica teve o condão de ficar inacabada — houve apenas tempo para dois álbuns e algumas recuperações póstumas.

O que poderia ter sido mas não foi: esse eterno, inalcançável ser português que o filme que João Maia há longo tempo preparava e agora finalmente estreia reproduz na perfeição. Variações procura o equilíbrio impossível entre o que foi e o que podia ter sido, que desenha Variações como uma figura, ela própria, inalcançável. Alguém que só conseguimos recriar através das canções que (como se diz às tantas no filme) mostravam muito mais dele do que se poderia pensar. A começar por Estou Além, essa canção-pedra-de-toque que nunca vamos conseguir afastar da memória — e a que o filme só recorre já no genérico final.

Há dois rasgos em Variações. Primeiro: afastar-se do Variações dos anos 1980, que todos conhecemos, para concentrar o filme nos finais da década de 1970, quando Variações era apenas António Ribeiro e tinha sonhos de ser cantor.

Segundo: recusar as canções mais evidentes e mais conhecidas para se concentrar no “catálogo” de material que foi acumulando durante anos, no processo de evolução da sua música de apenas António para Variações. São apostas válidas e inteligentes, que afastam este filme sóbrio (por vezes talvez demasiado) do biopic consensual e sublinham a imagem do cantor como alguém “fora da caixa” do Portugal em construção do pós-25 de Abril. Ao mesmo tempo, sublinham a quota-parte de mistério de uma personagem que nunca realmente conhecemos — e são também elas que deixam, também, Variações “aquém”.

Mesmo que lance luz sobre a história menos conhecida de António, Variações nunca consegue penetrar o mistério do homem. Em parte porque é assim que Maia e o seu actor Sérgio Praia (numa interpretação absolutamente superlativa) o retratam — como um mistério, talentoso e sedutor, de muitos rostos e muitas caras; em parte porque nada na história de António, apesar dos livros, das recordações, da popularidade, nos abre pistas para o resolver. António ficará, para sempre, um mistério que o filme nunca decide se quer ou não desvendar, ao mesmo tempo que celebra a originalidade de uma figura que nunca conseguiremos entender. Já dizia a canção: “em moldes feitos não me sei criar (...) também não sei se me quero formar”.

É isso que faz Variações tão fascinante como frustrante, tão respeitoso como fútil: é um filme permanentemente à procura, na absoluta certeza de que vai sempre ficar aquém. Isso não seria possível sem a alucinante precisão de Sérgio Praia, que veste a personagem como se ele próprio fosse Variações, num daqueles feitos em que actor e filme se confundem para as calendas; que nos devolve o homem em toda a sua carne e osso e alma e, sobretudo, em todo o seu mistério.

É o maior feito deste filme sincero: devolve-nos António Variações ao mesmo tempo que nos explica porque nunca o conseguiremos agarrar. Está tudo nas canções.

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