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Crítica

Clichés de Bombaim

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Duas das poucas cenas minimamente curiosas de Fotografia passam-se num velho cinema de Bombaim, aonde as personagens vão ver algo que se adivinha ser rotina bollywoodiana, e que continua a estar cheio. São cenas que sugerem que o cinema continua a estar no centro dos hábitos recreativos indianos, pelo menos ali em Bombaim, e por certo aquele cinema que há décadas garante a auto-subsistência da indústria indiana, feita por indianos para indianos, e que se até se exporta não é minimamente feito a pensar em audiências estrangeiras, muito menos ocidentais. Exactamente o contrário de Fotografia, o filme com que Ritesh Bhatra dá sequência a A Lancheira, que era, digamos, praticamente igual a este: uma “comédia romântica” muito leve, a carregar docemente nas teclas do folclore e do exotismo (muito traje tradicional, alguns postaizinhos das ruas de Bombaim), com ligeiras pretensões a photomaton social (em foco estão as tradições e pressões sociais, em especial o lugar da mulher), tudo construído de forma um tanto anedótica, quer dizer, a tender para um final em punchline (que efectivamente acontece).

Nada é especialmente antipático, os actores são minimamente sedutores, a história assenta em estereótipos mais que batidos (um homem convence uma rapariga a passar por sua noiva, para não desapontar a avó) mas tratados com alguma delicadeza. Só que tudo numa modorra típica do “esperanto” do world cinema, feita ao gosto de uma audiência internacional indiferenciada (naturalmente, foi um sucesso em Sundance), num estilo que do “particular” parece que retém só os cenários e a ambiência para depois se contentar numa indistinção sem gosto nem cheiro nem, verdadeiramente, muito cinema.

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