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Crítica

O médico e o santo

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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O título leva a crer que se trata de uma biografia do célebre médico português do século XIX, Sousa Martins, mas, como num truque de trompe l’oeil relativamente sagaz, não é bem assim. Passada a primeira vintena de minutos, as questões biográficas ficam praticamente arrumadas e o filme de Justine Lemahieu pode dedicar-se aquela que é a questão que - confessadamente, pelo que diz a voz off - o intriga de facto: a transformação de um clínico, que todas as fontes apontam como brilhante e um pouco excêntrico mas também laico e razoavelmente “positivista”, numa espécie de santo popular oficioso, a quem se atribuem e pedem milagres que extravazam o foro médico para chegar à vida económica e sentimental (ou mesmo a quem se agradece, como se lê no mais bizarro ex-voto mostrado no filme, um alerta atempado para os “perigos da cafeína”).

A religiosidade popular da “modernidade”, portanto, num sincretismo que mistura tudo, da raiz cristã aos pauzinhos de incenso e aos rituais do “reiki” e coisas que o valham. Vasta matéria, que o filme toca de maneira interessante mas demasiado esvoaçante, como se ficasse um pouco perdido entre o registo, sincero mas anedótico, de uma estranheza genuína (todos aqueles peregrinos que rumam à estátua do Campo dos Mártires da Pátria com os mais diversos pedidos e agradecimentos), e o salto para um olhar mais analítico que nunca chega realmente a acontecer. Também utiliza vários procedimentos (incluindo alguns momentos canónicos de “depoimentos para a câmara”), mas as melhores cenas são aquelas (talvez poucas, infelizmente) em que se assume como documentário de “acções” (melhor exemplo: as cenas com a romaria ao túmulo de Sousa Martins no cemitério de Alhandra). Feitas as contas aos seus vários desequilíbrios, fica um objecto curioso e honesto que tem a virtude de não se prostrar aos pés do “fenómeno” do seu tema e em vez disso procurar aclará-lo, torná-lo menos insólito à chegada do que era à partida.

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