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Crítica

Almodóvar 80 ½

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Depois de Fellini Oito e Meio, eis Almodóvar Oitenta e Meio. É irresistível dizê-lo, porque Dor e Glória é Almodóvar escondido com Banderas de fora, como Oito e Meio era Fellini escondido com Mastroianni de fora — um filme sobre um cineasta em crise que procura uma saída. Claro: Fellini não poria o seu cineasta em crise a fumar chinesas com o actor do seu filme mais mítico depois de 30 anos sem se falarem. Mas Almodóvar não é Fellini. E Dor e Glória se calhar até é mais Amarcord (no modo como todo o filme é construído ao sabor das memórias que vão e vêm e são recriadas) com uns pozinhos de Mamma Roma (no modo como todo o filme vai sempre dar à mãe-coragem a que Penélope Cruz dá uma ressonância de Magnani).

Portanto, Dor e Glória seria o Almodóvar que os fãs das obras-primas Tudo sobre a Minha Mãe / Fala com Ela / A Má Educação reclamavam (erradamente) que o homem já não era capaz de fazer. Pelo menos foi essa a reputação com que o filme saiu de Cannes 2019, reputação essa que se compreende por inteiro: Dor e Glória é obra de maturidade, de elegância e graça e seriedade quase sem esforço, sempre com um olho na ligeireza quase insolente daqueles primeiros filmes como Matador, Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos ou Negros Hábitos.

Salvador, o alter ego do realizador, rapaz do pueblo que conquista Madrid em plena Movida antes de se tornar cineasta respeitado, é alguém que não fez (ainda?) as pazes com o seu passado, e aquilo que Almodóvar nos mostra, nas idas e vindas entre uma infância pobre mas feliz e um presente rico mas angustiado, é uma possível estrada para a “salvação” (mas pode Salvador, que nem sequer quis ser padre, ser o salvador de si próprio, já que não o conseguiu ser da mãe?). Tudo filmado como só Almodóvar o sabe fazer: num cenário hiper-pop-art de cores fortes e primárias que nunca esconde o artifício do estúdio (ou de palco), como se a casa de Salvador tivesse ficado presa na década de 1980.

Aliás, sim, há telemóveis e computadores neste filme mas tudo é analógico, tudo se resolve em livros, palcos, conversas, copos, desenhos. É uma viagem no tempo a um período áureo, uma viagem ao passado em busca do princípio do mundo, do princípio do desejo — do primeiro momento em que a imagem se formou na cabeça de Salvador e do modo como ela fez o seu sinuoso e quase inexplicável percurso até este momento de crise em que o encontramos. Talvez até um adeus.

Será certamente um Almodóvar mais pessoal, mais vulnerável, mais exposto do que os últimos filmes seus que vimose volta a confirmar que o cineasta espanhol consegue tirar de Antonio Banderas e Penélope Cruz coisas que nenhum outro consegue (e Banderas, sobretudo, é tão certeiro num papel que exige um difícil equilíbrio que chega a ser escandaloso que mais ninguém o deixe representar assim). Mas, para lá dessa vulnerabilidade, que permite até alguns momentos de grandíssimo cinema (o espantoso reencontro entre Salvador e o seu namorado dos anos loucos, a que Banderas e Leonardo Sbaraglia dão uma justeza comovente), a verdade também é que Dor e Glória se limita a confirmar como o Almodóvar maduro é um classicista de primeira água com mão de mestre para o melodrama, capaz de colocar tudo no sítio certo sem perder tempo nem esforço. Já sabíamos disso, é essa a marca do seu cinema nos últimos anos, Dor e Glória não lhe traz novidades formais. Não precisa.

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