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Crítica

O homem transparente

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Já não é de agora que o cinema americano contemporâneo ergue a modelo o seu próprio passado da década de 1970, mas essas referências parecem estar cada vez mais presentes num momento em que o presente e o futuro da produção e da distribuição são tudo menos óbvios, como se o passado fosse um lugar de conforto ou um porto seguro. A ironia, contudo, impõe-se: Martin Scorsese teve de ir ao Netflix para conseguir filmar O Irlandês porque a Paramount não quis arriscar; mas a Warner não hesita em deixar Todd Phillips (A Ressaca) pegar numa das suas “propriedades intelectuais” mais preciosas para a tornar num filme de… Martin Scorsese. (Ainda bem que o fez, diga-se, mas a questão mantém-se.)

Daqui deriva que esta enésima reinvenção do Joker, o vilão que valeu o Óscar póstumo de melhor actor secundário a Heath Ledger sob Christopher Nolan, não é nem quer ser um filme de super-heróis. Nem sequer um filme de super-vilões. Este Joker, de seu nome Arthur Fleck, é um vencido da vida, um doente mental que sobrevive como palhaço de aluguer (e nem sequer muito bom), um capacho humano numa cidade suja, feia, violenta, dividida entre os que têm muito e os que não têm nada. E esta Gotham não é uma cidade de fantasia, é uma Nova Iorque à beira do caos no início da década de 1980, percorrida por filmes e referências da vida real, e onde os 99% se ressentem do 1% (e por isso pode também ser uma Los Angeles dos motins de Rodney King em 1992, ou uma Paris de 1789 e da Revolução Francesa, ou uma Kiev da “revolução laranja”...). Um cocktail molotov à espera apenas do fósforo que o incendeie — e esse fósforo vai ser Arthur, o filho que nunca conheceu o pai com uma história de problemas mentais, o palhaço que o acaso vai colocar no centro da conflagração num “dia de cão” que vai desencadear a tragédia.

Arthur é Travis Bickle, o Taxi Driver; é Rupert Pupkin, o aspirante a comediante de O Rei da Comédia (e é impossível não perceber como o casting de Robert de Niro por Phillips é uma deliberada inversão); é Howard Beale, o profeta louco de Network; é o Tommy de Pete Townsend e dos Who, o outsider autista que os outros vêem como deus. Arthur, na criação extraordinária, dolorida e transfigurada de Joaquin Phoenix, que não é apenas performativa mas completamente habitada, refugia-se no niilismo Nietzscheano porque nada mais pode dar sentido a uma vida da qual ninguém quer saber. Mato, logo existo, porque quando vivo ninguém dá por mim, parece dizer Arthur; um homem transparente.

Phoenix não transporta o filme aos ombros porque ele é o filme: nada mais existe a não ser a sua vida sem rumo, naquela que é talvez a maior aposta de Phillips — extricar um vilão da BD que o criou para dele fazer um símbolo, um retrato de um colapso moral e social a todos os níveis, um filme que nos obriga a viver as pequenas humilhações diárias, a indiferença quotidiana, a dor de ser apenas mais um corpo numa sociedade onde o capitalismo é levado aos seus limites. Joker confronta-se(-nos) com a realidade de existir e com os seus abismos, com um desespero e uma desesperança radicalmente brutais. Volta atrás ao cinema dos anos 1970 (sim, muito Scorsese, e também muito Sidney Lumet, e Jerry Schatzberg) numa procura de filiação cinéfila que pode por vezes parecer demasiado apegada, demasiado trabalhada, mas que nunca soa falsa ou artificial — mesmo que, francamente, não esperássemos de Todd Phillips um objecto desta inteligência e desta textura. Inquieto, perturbante, desconfortável. A piada, aqui, é literalmente mortal.

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