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Crítica

O cheiro a rabanete velho

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Da Coreia do Sul e de Bong Joon-ho (A Criatura, Memories of Murder, Snowpiercer) chega o olhar mais mortífero e mais eivado de uma ironia negríssima visto em muito tempo sobre um tema clássico mas caído em desuso no cinema ocidental: as questões de classe.

São eles, os pobres, os desempregados, os desapossados, os “parasitas”, na figura da família que nos é apresentada nas cenas iniciais. Vivem numa cave atravancada, com uma janelinha ao nível da rua aonde os bêbedos vêm urinar, e dedicam-se àquele “parasitismo” comum dos tempos modernos que consiste em tentar aproveitar o wi-fi dos vizinhos.

Depois, arranjam um esquema para que todos — um a um: pai, mãe, filho, filha — se empreguem, em tarefas serviçais na casa da mesma família de classe alta, o que implica inventar maneiras de fazer despedir os infelizes que lá trabalhavam antes nas mesmas tarefas. É o primeiro sinal da enorme violência contida no filme de Bong: os parasitas parasitam, mas não há lugar para todos parasitarem ao mesmo tempo e por isso têm que se eliminar uns aos outros. As incidências da narrativa levarão isto ao extremo, em cenas de uma violência quase cartoon, mas firmemente mantida sob controlo por Bong Joon-ho, que nunca deixa o filme descambar para o irrealismo nem para as metáforas balofas.

O alto e o baixo, a luz e os subterrâneos, a vida à superfície (os privilegiados) e a vida nas profundezas, numa espécie de invisibilidade (os “parasitas”) são elementos que pontuam o filme, visualmente, num extravasar de significados que não chegam a ser “metafóricos”. O domínio do sensível impera — não há apontamento mais cruel, nem mais humilhante, do que aquele em que o pai da família rica se queixa de que o motorista (que é o pai da família “parasita”) cheira a “rabanete velho”, que é o cheiro que se sente “nas pessoas que andam de metro”. Todos os complexos de classe (para cima ou para baixo) se resumem nessa frase e nessa ideia, a dum cheiro que “cruza a linha” (como diz o pai rico).

Mas, sinal da inteligência de Bong, não há verdadeiramente vilões, a família abastada é feita de gente simpática e de comportamentos ou preocupações apenas levemente caricaturais. Se a violência os toca, é quase como um ricochete: são os pobres, os parasitas, que se matam uns aos outros por um lugar na cave dos ricos, e isto é absolutamente literal.

Retrato corrosivo e devastador — da sociedade sul coreana, mas facilmente “importável” para as sociedades ocidentais — de um mundo onde o capitalismo cumpriu o que o socialismo prometeu (esbater, através de truques de ilusionismo, a noção de uma sociedade classista), Parasitas, rima curiosa para outro filme asiático recente (o Shoplifters de Kore-eda), é um dos filmes mais perturbantes, e mais sintomáticos dum mal estar moderno, que se poderão ver este ano.

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