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Crítica

É só inquietação, inquietação

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Porque é que os cineastas ingleses têm este fascínio mórbido pelas estrelas de Hollywood em decadência ou em crise em terras britânicas? E porque é que as actrizes americanas têm uma atracção incandescente pelos convites para as interpretarem? Lembramo-nos, assim de cabeça, de dois casos em que as performances eram de longe muito superiores aos filmes (e, em ambos os casos, foram nomeadas para o Óscar): Michelle Williams como Marilyn Monroe em A Minha Semana com Marilyn (Simon Curtis, 2011), Annette Bening como Gloria Grahame em As Estrelas Não Morrem em Liverpool (Paul McGuigan, 2017).

Juntemos-lhes agora Renée Zellweger como Judy Garland em Judy, que, inspirado por uma peça de Patrick Quilter, encena a passagem final por Londres da vedeta americana, seis meses antes da sua morte, aos 47 anos. O filme do encenador Rupert Goold atém-se à “história oficial”, à Garland eternamente traumatizada e emocionalmente abusada pela exploração de que foi alvo por parte da MGM, à mulher que queria ser amada mas andava à procura do amor em todos os sítios errados. A sua estadia em Londres, perto do final de 1968, destinava-se a repor as finanças em ordem para poder ficar com a custódia dos filhos, mas não era (não foi) preciso muito para Judy recair no álcool e nas drogas, nem para pensar que tinha de novo encontrado o amor com um homem que mais uma vez provou ser o errado.

O que Judy nos traz de novo não é, então, a história da actriz, mas antes o olhar sobre a actriz. Isto é, permitir a Renée Zellweger habitar Judy a partir dos detalhes — a colocação da voz e do sotaque, a articulação tonal das frases, das vogais, dos acentos; a presença  inquieta, o “bicho carpinteiro” de alguém que só no palco se sentia viva; a postura, o andar, o movimento. A Judy de Renée constrói-se por acumulação de pormenores que procuram menos uma semelhança física e antes uma recriação da presença — e é apropriado, para um filme que decorre quando Garland procurava desesperadamente voltar a ser a Garland que já não podia ser, que Zellweger se alimente dessa energia, dessa inquietação, para habitar o ícone.

Naquela que é a melhor cena do filme, Goold acompanha a estreia em palco em Londres de Judy com um único, longo plano-sequência que nunca larga Zellweger, que se transforma por pura força de vontade em Garland como Judy o fez nessa noite em palco. É um tour de force que sugere o que o filme poderia ter sido com um pouco menos de anonimato cumpridor e um pouco mais de rasgo; um momento inspirado que revela ao mesmo tempo como era em palco que Garland se transfigurava e como Zellweger se deixa possuir por isso. Há uma actriz aqui. Não chega para ganhar o filme; talvez chegue para ganhar o Óscar.

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