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Crítica

Descrição de uma rua

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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E eis que numa Lisboa em acelerada mutação (que tem implicado, como todos sabemos, uma forma de rasura, em vários sentidos) as suas ruas se podem transformar num assunto quase “arqueológico”. É a proposta de Renata Sancho para a avenida que dá título ao seu filme: recompor aspectos da sua história, fazer-lhe um mapa, varrer-lhe o espaço. Isto — um movimento a “varrer” — acontece literalmente, através duma preciosidade de arquivo integrada no filme, imagens a cores captadas num travelling de automóvel que desce a avenida na direcção do Martim Moniz, filmadas no princípio dos anos 70 (os grandes cartazes que anunciam os filmes no Império permitem datá-las como sendo de um época já relativamente próxima do 25 de Abril de 74, e de resto não será a única vez que o cinema, e em particular a memória do velho Império, desempenhará um papel no filme). Associa-se, a partir da história do Almirante Reis que lhe dá nome (figura trágica da implantação da República), a avenida a uma vocação “revolucionária” — e aparecem, também, as imagens das grandes manifestações do 1º de Maio de 1974, imagens “parentes” das do célebre As Armas e o Povo (vêm-se várias figuras reconhecíveis, e mesmo Fernando Lopes, em plena rodagem, empoleirado no tejadilho dum automóvel), e de novo o Império, orgulhosamente ostentando o gigantesco cartaz do Couraçado Potemkin que Cunha Telles se apressou a estrear nos dias a seguir à revolução.

Depois, passa-se à época contemporânea, descendo-se a avenida com diversas paragens e incursões pelas suas lojas. Foca-se a diversidade cultural da zona, as lojinhas chinesas, indianas, paquistanesas ou nepalesas, e há mesmo imagens de uma celebração chinesa que traz dragões de papel coloridos para o asfalto da avenida. Mostram-se coisas perdidas, como a fachada do Café Herminius (com um texto de Cardoso Pires em off), e coisas que se mantém como ex-libris da rua (um breve apontamento nas cozinhas da cervejaria Portugália). Mas, sobretudo, e numa cidade cada vez mais gourmet e mais indistintamente “internacional”, uma espécie de fealdade orgulhosa, através de todas aquelas lojas e montras que vêm doutro tempo, e que seguem critérios estéticos e comerciais totalmente alheios ao que está na moda, ao que hoje é cool e “glamourouso” — e Renata Sancho filma isso como uma espécie de resistência, mais ou menos involuntária, mais ou menos inconsciente, ao avanço do rolo compressor da “turistificação”, grãos de areia grossa na engrenagem duma cidade que funciona cada vez mais a areia enjoativamente fina. É bonito, assim, mas é pena que o filme acabe por parecer demasiado curto (nos seus cerca de 75 minutos): é um caso em que o tempo, e a acumulação (quando não mesmo a exaustão do espaço da avenida para além de uns quantos momentos seleccionados), trariam ao filme um “corpo” que ele acaba por não ter, mas que tudo nele parece pedir.

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