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Crítica

Quando a América desembarcou em Le Mans

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Um capítulo célebre do automobilismo desportivo: quando a Ford, querendo dinamizar uma imagem demasiado ligada a carros familiares e económicos, apostou num programa para ganhar as 24 Horas de Le Mans, coutada dos construtores europeus e especialmente, na época (meados dos anos 1960), da Ferrari. Vale a pena dizer que o sucesso da operação da Ford (que depois ganhou a prova quatro vezes seguidas) elevou tanto o perfil de Le Mans nos EUA que esteve na origem directa de um filme, o Le Mans de Lee H. Katzin protagonizado por Steve McQueen (1971), que hoje se vê como um curiosísismo documentário (quase tudo é “real”, câmaras montadas em carros durante a corrida, longos travellings a trezentos à hora). No filme de Mangold as cenas da corrida soam mais ao falso da reconstituição, inevitavelmente, e nem sequer tão bem conseguida como a Fórmula 1 de 1976 no Rush de Ron Howard (o último filme aceitável sobre corridas de automóveis), mas nelas o protagonista não é nem Matt Damon nem Christian Bale, antes o lindíssimo Ford GT 40 (um dos mais belos carros de corrida alguma vez construídos). Não chega a ser “fetichista”, o que até é pena, mas providencia doses de car porn suficientes para satisfazer o entusiasta de automóveis.

Mas, por simpático que seja, Le Mans ‘66 é um filme desequilibrado e descentrado. Torna-se difícil decidir sobre o que, ou sobre quem, é exactamente. Sobre Carroll Shelby (Damon), o construtor recrutado pela Ford para lhe desenvolver o GT 40, e que passa o filme na corda bamba entre os instintos do “empreendedorismo” individualista e o pragmatismo político da relação com um gigante corporate como a Ford? Sobre Ken Miles (Bale), o rapidíssimo mas pouco “publicitário” piloto (tem mau feitio, tem mais de 40 anos) que foi fundamental no triunfo da Ford mas de quem a Ford não gostava por causa de uma imagem que não sabia vender? Sobre Henry Ford II (Tracy Letts, que rouba todas as cenas em que entra), esse homem que carregava o “II” do nome como uma cruz pesadíssima (diz-lhe Enzo Ferrari, como se fosse o maior insulto possível: “você não é Henry Ford, é Henry Ford Segundo”)? Sobre o eterno conflito americano, tão filmado por Vidor, por exemplo, entre o génio individual e o esmagador interesse corporativo? Sobre um canto do cisne de Detroit e da indústria automóvel americana, que não voltou a ter nenhum sucesso significativo na Europa? Enfim, um pouco sobre tudo isto, sem chegar a ser realmente sobre nada disto. Um filme simpático, mas também um tanto frustrante. 

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