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Crítica

A vida num mundo uberizado

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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O mundo muda mas Ken Loach não, para o bem e para o mal. Aos 83 anos, se não é o único autor europeu a reflectir sobre a realidade político-económica contemporânea, deve ser aquele que o faz mais furiosamente, e com uma fúria sempre servida à flor da pele, com um mínimo de arrefecimento e de distância. Os seus filmes são como gestos impulsivos, respostas “a quente”, acções de combate, o que também explica a irregularidade da sua obra – porque nem sempre um gesto impulsivo encontra a precisão necessária.

É o caso deste Passámos por Cá, indubitavelmente um “gesto impulsivo”, uma “acção de combate” focada nas modernas relações laborais e formas de trabalho (como o trabalho “uberizado”), nos seus efeitos sobre as vidas pessoais e, consequentemente, sobre a paisagem social. Sucede a Eu, Daniel Blake, Palma de Ouro em Cannes e um dos melhores Loach dos últimos anos (e justamente um dos mais “arrefecidos”, sem prejuízo algum para a sua pungência), e mesmo pesando todas as suas virtudes, em especial o “dialecto” do “realismo britânico” que Loach fala com o à vontade de uma língua materna, é um filme um pouco mais demonstrativo.

É como a descrição da vida dentro duma panela de pressão, rumo ao inevitável ponto de ebulição. “Pressão” é o que mais há na vida do protagonista masculino (Kris Hitchen), que pensa refazer um caminho profissional pondo a sua empregando-se como motorista ao serviço de um franchise de entregas ao domicílio – para se ver envolvido num carrocel non stop, única forma possível de tentar equilibrar despesas, dívidas e rendimentos (e quando Loach filma esse carrocel, das entregas aos clientes à relação com a tendencialmente abstracta entidade patronal, o filme arranca algumas das suas cenas mais eficazes).

A personagem da mulher dele (Debbie Honeywood) permite um olhar sobre outra franja social: é cuidadora, vai a domicílios prestar apoio a idosos e inválidos, e também isso é outro tipo de carrocel, sem meios nem compensações, que desvela outra face escondida do mundo contemporâneo, britânico e não só, a de uma assistência social à beira do colapso. Toda esta pressão tem efeitos no tecido familiar, na relação conjugal na relação dos pais com os filhos – em última análise, o ponto a que Loach quer chegar no seu retrato devastador da Grã-Bretanha contemporânea, dado como um murro na cara. A sua eficácia rima com a sua urgência (para mais, com o Brexit a pairar indefinidamente), e nem uma nem outra se discutem. Mas Loach, no seu melhor, pode ser capaz de apontar a mais do que apenas ao escaldão na pele.

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