Menu
Crítica

As regras do jogo

Autor da crítica: Jorge Mourinha

  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

As regras do jogo estão logo no primeiro plano: uma caneca de café que diz “a minha casa, as minhas regras, o meu café”. Depois é questão de saber como respeitá-las, o que num mistério policial implica também saber como as contornar para melhor as respeitar. Tudo começa por um crime de “quarto fechado” — um autor de best-sellers policiais aparece morto depois da festa do seu 85º aniversário, tudo aponta para suicídio, mas alguém contrata um detective para ir ao fundo da coisa e perceber que, na mansão rural e muito gótica dos Thrombey no Massachusetts, alguém jogou sujo. Como também é costume, toda a gente naquela casa tinha razões para matar o patriarca — o gozo todo está em descobrir o assassino. Knives Out é Agatha Christie pura refractada pela sensibilidade pop de Rian Johnson, que começou carreira a fazer esse film noir de liceu chamado Brick e que entrou na primeira liga com Looper antes de enfurecer/deliciar os fãs de Star Wars com O Último Jedi. Não lhe falta o elenco misto de actores de composição aclamados (Michael Shannon, Toni Collette) e vedetas em segundo fôlego (Christopher Plummer, Jamie Lee Curtis, Don Johnson). Não lhe falta o detective provocantemente metódico e com  sotaque arreigado (Daniel Craig). E não lhe falta o savoir-faire que coloca tudo no sítio certo no momento certo. 

Mas como estamos em 2019 e um whodunit moderno já não pode ser literal, vá de injectar toda uma série de meta-reflexões sobre o género, com a displicência descontraída de quem é fã do género e tem a noção exacta de até onde o pode esticar. Cita-se David Foster Wallace e Thomas Pynchon; o centro do salão dos Thrombey tem um “trono de ferro” que não está lá por acaso, e às tantas alguém está a ver a popular série policial Crime, Disse Ela, dobrada em espanhol; evoca-se a imigração sob a administração Trump e o make America great again, areja-se a roupa suja da família em público, da nora new age armada em Gwyneth Paltrow dos pobrezinhos aos netos que são um troll da nova direita, uma universitária activista liberal e um playboy dependente do dinheiro da família. Tudo visto pelos olhos do detective e da enfermeira (imigrante) do patriarca falecido, enquanto Johnson se diverte a baralhar as peças a cada 20 minutos.

O espectador, esse, aceita as regras e deixa-se levar — com prazer e com bom humor, embora seja mais fácil divertir-se com Knives Out se for amante da literatura e do cinema policial, capaz de reconhecer as pistas e referências que Johnson vai deixando. E percebe às tantas que há também uma dissecção profunda do privilégio branco, do “um por cento”, das desigualdades monetárias e sociais, tudo isto enquanto se brinca aos policiais. Não diremos mais, mas diremos que a passagem de testemunho fecha o círculo nos últimos planos do filme. As regras do jogo foram seguidas à risca e subvertidas à risca, e passámos umas belas duas horas antes de tudo se revelar como muito mais complicado do que parecia. A solução está à vista — basta estar atento.

Topo
Pesquisar
© 2011 PÚBLICO Comunicação Social SA