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Crítica

A comunidade vai-se aguentando

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Terceiro filme longo de Susana Nobre, depois de O Que Pode um Rosto (filmado no IPO de Lisboa) e de Vida Activa (o desemprego a partir dos depoimentos de participantes no extinto programa das “Novas Oportunidades”), Tempo Comum precisa o interesse da realizadora pela observação da “vida normal”, do “tempo comum”, daquilo que marca e dá sentido a uma ideia de comunidade. A “situação extraordinária” aqui, mas afinal tão comum, é a chegada de um bebé a uma família. Não é apenas o tema da maternidade, embora o filme abunde em apontamentos sobre a experiência de uma mãe entre o fim da gravidez e as primeiras depois do parto. Mas há um pai, há uma família ou um projecto de família, há um quotidiano — dentro e fora de casa — que é inexoravelmente agitado pela chegada do recém-nascido, e isto é que é o centro do interesse de Tempo Comum.

Daí que a câmara nunca se feche em torno das figuras do casal e da criança, nem do espaço doméstico que habitam. Certo: num estilo que terá mais a ver com uma ideia de documentário “encenado” do que “ficcionado”, Tempo Comum dá a ver os gestos do quotidiano, gestos de aprendizagem rapidamente transformados em gestos rituais, e o funcionamento diário de uma relação conjugal que tem que integrar um elemento novo. Mas ninguém ali vive numa bolha auto-suficiente (há, por exemplo, a questão do regresso ao trabalho), o diálogo interior-exterior é permanente. Diríamos que esse “corredor” entre “a casa e o mundo”, sempre percorrido nos dois sentidos (há as visitas, as pessoas que vêm dar conselhos, relatar as suas experiências), é que torna o filme especial: de qualquer coisa banal e quase microscópica (um casal e uma criança) constrói, numa espécie de filigrana, um retrato comunitário que diz, e mostra, muita coisa sobre como vivemos, todos, em Portugal, final da segunda década do século XXI.

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