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Crítica

Encontros imediatos do grau choné

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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É reconfortante ver que, nestes tempos de franchises e universos cinemáticos programados com antecipação, o artesanato feito à mão ainda tem espaço para existir e para nos divertir à grande. A Ovelha Choné, criação dos estúdios de animação Aardman, já é, ela própria, um franchise — começou como personagem secundária numa das curtas de Wallace & Gromit, autonomizou-se numa série televisiva de grande sucesso e chega agora ao segundo filme em grande ecrã.

O que diferencia este franchise da concorrência? O facto do estúdio de Bristol criado por Nick Park, Peter Lord e David Sproxton insistir na meticulosa arte — porque é uma arte — da plasticina animada fotograma a fotograma ao longo de meses quando não anos. Há qualquer coisa de táctil, de tangível, de feito à mão em A Quinta Contra-Ataca que está ausente da maior parte da animação contemporânea, à excepção da Pixar quando está em topo de forma. E A Quinta Contra-Ataca é a Aardman no topo da forma, numa “sequela” infinitamente superior ao primeiro filme com a Choné e mesmo (sacrilégio!) à Idade da Pedra que Park realizou em 2018.

Estamos, aqui, ao nível da lendária Fuga das Galinhas, numa comédia delirante que parodia com infinita afeição a ficção científica popular: Encontros Imediatos do Terceiro Grau, Star Trek, Ficheiros Secretos, E. T., Homens de Negro, Sinais, Transformers, Paul, Doctor Who, Monstros & Companhia, Wall-E, passa tudo e mais pelo crivo da inventividade dos argumentistas Mark Burton e Jon Brown e dos realizadores Richard Phelan e Will Becher, integrado na história dos sarilhos em que a Choné e o cão de guarda Bitzer se metem quando um extra-terrestre esfomeado (e com um gostinho por fast-food)  cai na aldeia de Mossingham. Mas não é só o uso das referências que é notável — o espantoso, mesmo, é a quantidade de gagues que o filme alinha aparentemente sem esforço, sempre naquela linhagem do melhor humor inglês anárquico-delirante, e sem recorrer a uma única linha de diálogo falado. Tudo é — à falta de melhor palavra para o descrever e apesar do extraordinário arroto extra-terrestre - “mudo”.

E só quando saímos do filme (fiquem mesmo até ao finalzinho do genérico, mesmo com luzes acesas e senhoras da limpeza, porque vale a pena) é que percebemos: em menos de hora e meia, rimo-nos até rebolar nas coxias (e já não nos ríamos assim no cinema há muito tempo) sem que se diga uma única palavra em todo o filme. A Quinta Contra-Ataca é um grandíssimo momento de comédia clássica literalmente feita à mão, slapstick chaplinesco e anarquia (mas não muita, porque “somos britânicos”).

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