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Crítica

A chaga da Saga

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Imagine-se um filme passado durante a II Guerra Mundial em que à menção de Berlim uma personagem comentasse: “Berlim? A capital da Alemanha nazi?”; ou, à menção de Mussolini: “Mussolini? O líder da Itália fascista?”. Mutatis mutandis, e substituindo as referências históricas por nomes fictícios apatetados como Exegol ou Endor, é esta a lógica, explicativa e expositiva, da avalanche de diálogos de A Ascensão de Skywalker: sempre, mas sempre, informação supérflua, contextualização irrelevante, espécie de notas de rodapé para que o espectador não se perca no mar de personagens e relações entre personagens, planetas e impérios, avanços e recuos temporais.

Admita-se que, tantas voltas a “saga” já deu, mesmo os “fãs” (aqueles que prefeririam que estes filmes fossem abordados por “críticos de Star Wars” em vez de por críticos de cinema, que obviamente não percebem nada da profundidade da coisa) se possam sentir perdidos e precisem de lembranças ocasionais de onde estão as personagens, o que é que estão a fazer, e quem é que é filho de quem. Mas, convenhamos, é um pouco demais, e fora meia dúzia de tentativas de comic relief a sensação é de que os diálogos são todos, mas todos, assim, informativo-explicativos, e nem por uma vez uma fala de uma personagem pretende defini-la ou redefini-la, comentar ou enquadrar, de forma mais aguda, a narrativa.

Que está – isto, acima descrito, é uma lógica profundamente telenovelesca – cada vez mais soap opera do que space opera, artifício para vender sabonetes. Trata-se, pois, uma valente ensaboadela, onde parece que já nem os valores visuais – digamos, o sentido de espectáculo propulsionado pelo imaginário e pelos efeitos digitais – têm alguma espécie de precedência. A narrativa, para além de confusa (JJ Abrams bem tenta conter essa confusão, apostando em cenas curtíssimas), assenta numa correria constante digna dum jogo de computador em plataformas, com as personagens à procura dum objecto qualquer que lhes permita aceder a outro objecto, e por aí fora até ao último nível – que é invariavelmente o derradeiro, ultimate, mas igual aos outros todos, confronto com o Império e com o “lado negro”.

Um bocejo. Salva-se, com boa vontade, uma personagem, a de Adam Driver, que é a presença mais física, mais real (até na voz grave e áspera) de todo o filme, e mesmo as aparições das velhas glórias da saga (Carrie Fisher, aproveitando cenas não incluídas na montagem do episódio anterior, Mark Hamill, Harrison Ford, Billy Dee Williams) cumprem uma função evocativa que equivale a nada. A fórmula parece esgotada, sugada à exaustão, desprovida de qualquer energia ou frescura. Mas nada que impeça, a julgar pelo final semi-aberto, que venham aí mais sabonetes.

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