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Crítica

O suspeito do costume

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Depois de O Correio da Droga, O Caso de Richard Jewell é o segundo filme em menos de um ano com a assinatura de Clint Eastwood, que à beira do nonagésimo aniversário (completa-o em 2020) parece estar a levar a sério o exemplo de Manoel de Oliveira, como ele próprio referiu em entrevistas depois de um encontro, há uns anos, entre os dois.

O Caso de Richard Jewell nem é tão bom como O Correio da Droga nem traz Eastwood como actor, aqui outra vez exclusivamente remetido ao lugar atrás da câmara. É, contudo, um óptimo filme, perfeitamente em linha, e em total coerência, com o que têm sido as preocupações do realizador nos últimos anos, como se fosse mais uma peça acrescentada a um jogo de espelhos e reflexos (porque são filmes, e falamos da obra de Eastwood pós-Gran Torino, que parecem cada vez mais olhar uns para os outros).

É também, como vários destes últimos filmes de Clint, inspirado em episódios verídicos. No caso, o atentado bombista perpetrado em Atlanta, em 1996, durante os Jogos Olímpicos realizados na cidade georgiana. Richard Jewell foi o segurança que detectou a mochila abandonada onde se encontrava a bomba e deu o alarme, assim evitando uma lista de baixas mais avultada. Inicialmente louvado (pela imprensa, sobretudo) como um “herói”, Jewell viveu um curto período de fama, antes de se tornar, para a equipa do FBI que investigava o caso, no principal suspeito da autoria do atentado. A partir daqui, O Caso de Richard Jewell é um filme sobre a vã e quase sacrificial glória do “heroísmo”, que rima muito claramente, e de entre a obra recente de Clint, Sully, outro filme sobre um “herói popular” forçado a conviver com a dúvida sobre a natureza das suas acções. Aqui, a dúvida é sobretudo uma questão de percepção pública, e o filme não assenta em nenhum tipo de mistério sobre a suposta responsabilidade de Jewell. Por isso mesmo, a personagem de Jewell (Paul Walter Hauser, excelente) atravessa o filme numa espécie de “santidade”, ou pelo menos de estoicismo abnegado, que é a principal razão de ser do retrato que Clint dele compõe.

Ao mesmo tempo, o cineasta continua a lidar com a questão dos estereótipos que se tornam preconceitos. No fundo, a razão por que Jewell se torna suspeito aos olhos do FBI é essencialmente uma questão de estereótipo: corresponde a um “perfil”, o perfil do “terrorista doméstico” americano, e naqueles tempos pré-11 de Setembro, com a memória de Timothy McVeigh muito fresca, é esse perfil que chama a atenção. A este respeito, é um filme simétrico de O Correio da Droga, onde a personagem de Clint escapava tanto tempo aos radares da polícia pela razão oposta, a de não se inscrever no estereótipo das “mulas” passadoras de droga. Personagens como Jewell, um homem gordo, solitário, que vive com a mãe, que tem armas em casa (this is Georgia!), que parece susceptível a um submundo conspiratório (que em 1996 ainda não era bem o que conhecemos hoje da internet), são hoje, na América dos mass shootings, quase uma categoria política — e certamente que Clint faz o possível, mas sempre com subtileza, para que o espectador pense nisso, sempre respaldado, até com uma certa perversidade, no inquestionável facto da total inocência de Jewell. É no espírito do espectador — no estereótipo do espectador — que os alarmes e as correspondências disparam, e esse é o efeito mais perverso operado pelo mecanismo do filme.

Que é também uma observação das “instituições”, do FBI à imprensa e respectivos “espectáculos”, de onde deriva toda a cadeia de acontecimentos que leva às suspeitas sobre Jewell. É, por isso, um filme “desconfiado”, embora resolva essa desconfiança com um olhar que não faz de ninguém realmente um vilão — nem o agente do FBI (Jon Hamm) nem a jornalista tão insolentemente “hawksiana” interpretada por Olivia Wilde. De resto, e acrescentando a personagem de Sam Rockwell (o advogado de Jewell), é um filme que traz em pleno a habilidade de Clint para criar personagens de uma maravilhosa truculência, e depois ficar a vê-las a chocarem umas com as outras. É que O Caso de Richard Jewell é, para lá de tudo o mais, um filme bastante divertido — e nunca ninguém tinha imaginado que o melhor emprego cinematográfico de uma canção tão insuportável como a “Macarena” viria pelas mãos de Clint Eastwood.

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